Recursos financeiros são principal demanda de negócios de impacto
Negócios que geram impactos sociais e ambientais positivos estão em destaque no País, mas carecem de recursos financeiros, diz estudo
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de abril de 2019
Negócios que geram impactos sociais e ambientais positivos estão em destaque no País, mas carecem de recursos financeiros, diz estudo
Mie Francine Chiba - Grupo Folha 
A Região Sul é a segunda com maior concentração de negócios de impacto, segundo apontou um levantamento realizado pela Pipe.Social, uma espécie de vitrine de negócios de impacto social e ambiental do Brasil. Esses empreendimentos têm a missão de gerar impacto socioambiental ao mesmo tempo em que produzem resultado financeiro positivo de forma sustentável. Cerca de 14% dos negócios de impacto se encontram na região, que perde apenas da Região Sudeste, onde se localiza mais da metade desses negócios (62%). A maior parte dos negócios de impacto brasileiros são das áreas de tecnologias verdes (46%), cidadania (43%) e educação (36%). O levantamento levou em consideração 1.002 negócios de impacto cadastrados na base da Pipe.Social.

“O setor de negócios de impacto têm uma tendência forte de crescimento. Cada vez mais as pessoas têm começado a se preocupar com a pauta da sustentabilidade”, comenta Lívia Hollerbach, fundadora da Pipe.Social. Segundo ela, os negócios de impacto crescem especialmente em locais onde há muitos problemas socioambientais que o governo, sozinho, não consegue resolver. “Onde existem problemas, há negócios.” E eles têm um potencial muito maior que as grandes empresas de resolver problemas sociais e ambientais, porque já nascem com esse propósito.
O estudo realizado pelo Pipe.Social mostra que para 48% ajuda financeira é a sua principal demanda. Oito em cada dez negócios de impacto estão captando recursos, embora a maioria ainda não esteja faturando (43%), porque se encontra ainda em estágio inicial. “Esses têm uma necessidade maior de dinheiro, principalmente quando têm tecnologia envolvida”, afirma Hollerbach. O investimento próprio é a principal fonte de recurso desse negócios (76%), seguida por FFF - Family, Friends & Fools (Família, Amigos e Fãs) – e sócio-investidores.
De acordo com a fundadora do Pipe.Social, a maioria dos negócios de impacto demandam um ticket baixo de investimento. Por isso, algumas novas fontes de recursos como o microcrédito, o equity crowdfunding – que oferece a possibilidade de receber aportes menores de um número maior de investidores - e o venture philantropy – tipo de investimento de capital de risco aplicado para atingir metas filantrópicas - têm potencial como fonte de recursos para os empreendedores de negócios de impacto.
Rose Conte, gestora comercial da Acquaconte, startup de infiltradores de Londrina, relata dificuldades de conseguir clientes e recursos para o negócio ambiental e social. “As pessoas entendem o benefício ambiental do produto, acham bonito mas não querem pagar por isso. O apelo ambiental é mais difícil de ser compreendido.” A Acquaconte produz infiltradores capazes de acelerar a infiltração de água no solo até três vezes mais rápido, diminuindo as chances de alagamento nas cidades. A solução ainda revigora os mananciais e armazena água para reuso, gerando economia.
Segundo Conte, a startup recebe pedidos mas não consegue atender, devido à falta de capital. Recentemente, a Acquaconte foi selecionada em um edital da Prefeitura de Salvador (BA), para a instalação dos infiltradores em uma rua da cidade que apresentava problema crítico de alagamento. “Estávamos quase sem fôlego quando surgiu a oportunidade. Essa oportunidade gerou um certo fôlego para a gente, mas mesmo assim estamos em busca de investimento.” Para a gestora da Acquaconte, os editais são uma maneira segura de conseguir recursos, pois independem da geração de lucro. “Investidor vê o o lucro. Hoje creio que, para quem está começando, os editais são uma forma mais segura de ser atendido.”
A EducaMaker, de Londrina, atende hoje mais de 9 mil alunos em todo o Brasil com uma plataforma on-line de ensino. A missão da startup é oferecer uma maneira atrativa e acessível de estudos para alunos do Ensino Médio que estão estudando para o vestibular. A plataforma usa recursos de gamificação, liberando novos conteúdos conforme o estudante avança no aprendizado. O aluno paga R$ 89 ao ano para usar a plataforma. “E se ele estudar pela plataforma e não for aprovado no vestibular, não paga nada”, afirma Tiago Mariano, um dos fundadores da plataforma. Para ajudar estudantes de baixa renda a terem acesso à plataforma, a EducaMaker criou um programa chamado “Adote um aluno”, para que empresários e mesmo pessoas físicas possam financiar os estudos de alunos carentes.
Hoje, a EducaMaker conta com recursos próprios de investimento e com a ajuda de “padrinhos”. A startup já recebeu R$ 250 mil de um grupo de investidores de Londrina. Para Mariano, até ganhar autoridade e escalabilidade, é muito difícil conseguir recursos suficientes para se manter. “Atuamos no nicho educacional, que tem players muito grandes, uma concorrência muito agressiva no Brasil”, comenta o fundador. Para esse ano, ele pretende aumentar o investimento em marketing para atrair mais alunos e assim melhorar a sustentabilidade financeira da startup.
Mudança de visão
Para a fundadora do Pipe.Social, Lívia Hollerbach, os negócios de impacto são atrativos para os investidores porque têm escalabilidade. Além disso, os fundos de investimento começam a ser geridos pelos millenials, que têm mais conexão com a causa social e ambiental. “Esse investidor tem uma preocupação maior em aplicar dinheiro em algo que dê retorno social e ambiental positivo.”
Moacir Vieira dos Santos, sócio-administrador do grupo de investimento-anjo Smart Value, de Londrina, destaca que o investimento em alguns negócios de impacto social e ambiental esbarram na barreira do custo. “Os projetos têm um custo muito elevado. Eles têm um impacto positivo na sociedade, mas financeiramente não são viáveis.” Ele cita o exemplo da fabricação de produtos alternativos ao uso dos canudos plásticos. “Quando fazemos a conta do custo para fabricar, é cinco a seis vezes mais alto que o convencional.” Para superar essa barreira, ele sugere fazer conexões com outros membros da cadeia produtiva e de fornecedores, que podem ajudar a diminuir o custo de produção.


