A Região Sul é a segunda com maior concentração de negócios de impacto, segundo apontou um levantamento realizado pela Pipe.Social, uma espécie de vitrine de negócios de impacto social e ambiental do Brasil. Esses empreendimentos têm a missão de gerar impacto socioambiental ao mesmo tempo em que produzem resultado financeiro positivo de forma sustentável. Cerca de 14% dos negócios de impacto se encontram na região, que perde apenas da Região Sudeste, onde se localiza mais da metade desses negócios (62%). A maior parte dos negócios de impacto brasileiros são das áreas de tecnologias verdes (46%), cidadania (43%) e educação (36%). O levantamento levou em consideração 1.002 negócios de impacto cadastrados na base da Pipe.Social.

Tiago Mariano, da EducaMaker; startup sofre concorrência de grandes players da área de educação
Tiago Mariano, da EducaMaker; startup sofre concorrência de grandes players da área de educação | Foto: Marcos Zanutto

“O setor de negócios de impacto têm uma tendência forte de crescimento. Cada vez mais as pessoas têm começado a se preocupar com a pauta da sustentabilidade”, comenta Lívia Hollerbach, fundadora da Pipe.Social. Segundo ela, os negócios de impacto crescem especialmente em locais onde há muitos problemas socioambientais que o governo, sozinho, não consegue resolver. “Onde existem problemas, há negócios.” E eles têm um potencial muito maior que as grandes empresas de resolver problemas sociais e ambientais, porque já nascem com esse propósito.


O estudo realizado pelo Pipe.Social mostra que para 48% ajuda financeira é a sua principal demanda. Oito em cada dez negócios de impacto estão captando recursos, embora a maioria ainda não esteja faturando (43%), porque se encontra ainda em estágio inicial. “Esses têm uma necessidade maior de dinheiro, principalmente quando têm tecnologia envolvida”, afirma Hollerbach. O investimento próprio é a principal fonte de recurso desse negócios (76%), seguida por FFF - Family, Friends & Fools (Família, Amigos e Fãs) – e sócio-investidores.

De acordo com a fundadora do Pipe.Social, a maioria dos negócios de impacto demandam um ticket baixo de investimento. Por isso, algumas novas fontes de recursos como o microcrédito, o equity crowdfunding – que oferece a possibilidade de receber aportes menores de um número maior de investidores - e o venture philantropy – tipo de investimento de capital de risco aplicado para atingir metas filantrópicas - têm potencial como fonte de recursos para os empreendedores de negócios de impacto.


Rose Conte, gestora comercial da Acquaconte, startup de infiltradores de Londrina, relata dificuldades de conseguir clientes e recursos para o negócio ambiental e social. “As pessoas entendem o benefício ambiental do produto, acham bonito mas não querem pagar por isso. O apelo ambiental é mais difícil de ser compreendido.” A Acquaconte produz infiltradores capazes de acelerar a infiltração de água no solo até três vezes mais rápido, diminuindo as chances de alagamento nas cidades. A solução ainda revigora os mananciais e armazena água para reuso, gerando economia.


Segundo Conte, a startup recebe pedidos mas não consegue atender, devido à falta de capital. Recentemente, a Acquaconte foi selecionada em um edital da Prefeitura de Salvador (BA), para a instalação dos infiltradores em uma rua da cidade que apresentava problema crítico de alagamento. “Estávamos quase sem fôlego quando surgiu a oportunidade. Essa oportunidade gerou um certo fôlego para a gente, mas mesmo assim estamos em busca de investimento.” Para a gestora da Acquaconte, os editais são uma maneira segura de conseguir recursos, pois independem da geração de lucro. “Investidor vê o o lucro. Hoje creio que, para quem está começando, os editais são uma forma mais segura de ser atendido.”


A EducaMaker, de Londrina, atende hoje mais de 9 mil alunos em todo o Brasil com uma plataforma on-line de ensino. A missão da startup é oferecer uma maneira atrativa e acessível de estudos para alunos do Ensino Médio que estão estudando para o vestibular. A plataforma usa recursos de gamificação, liberando novos conteúdos conforme o estudante avança no aprendizado. O aluno paga R$ 89 ao ano para usar a plataforma. “E se ele estudar pela plataforma e não for aprovado no vestibular, não paga nada”, afirma Tiago Mariano, um dos fundadores da plataforma. Para ajudar estudantes de baixa renda a terem acesso à plataforma, a EducaMaker criou um programa chamado “Adote um aluno”, para que empresários e mesmo pessoas físicas possam financiar os estudos de alunos carentes.


Hoje, a EducaMaker conta com recursos próprios de investimento e com a ajuda de “padrinhos”. A startup já recebeu R$ 250 mil de um grupo de investidores de Londrina. Para Mariano, até ganhar autoridade e escalabilidade, é muito difícil conseguir recursos suficientes para se manter. “Atuamos no nicho educacional, que tem players muito grandes, uma concorrência muito agressiva no Brasil”, comenta o fundador. Para esse ano, ele pretende aumentar o investimento em marketing para atrair mais alunos e assim melhorar a sustentabilidade financeira da startup.


Mudança de visão
Para a fundadora do Pipe.Social, Lívia Hollerbach, os negócios de impacto são atrativos para os investidores porque têm escalabilidade. Além disso, os fundos de investimento começam a ser geridos pelos millenials, que têm mais conexão com a causa social e ambiental. “Esse investidor tem uma preocupação maior em aplicar dinheiro em algo que dê retorno social e ambiental positivo.”


Moacir Vieira dos Santos, sócio-administrador do grupo de investimento-anjo Smart Value, de Londrina, destaca que o investimento em alguns negócios de impacto social e ambiental esbarram na barreira do custo. “Os projetos têm um custo muito elevado. Eles têm um impacto positivo na sociedade, mas financeiramente não são viáveis.” Ele cita o exemplo da fabricação de produtos alternativos ao uso dos canudos plásticos. “Quando fazemos a conta do custo para fabricar, é cinco a seis vezes mais alto que o convencional.” Para superar essa barreira, ele sugere fazer conexões com outros membros da cadeia produtiva e de fornecedores, que podem ajudar a diminuir o custo de produção.

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