Recuperação mundial abre mercado para os países emergentes
Dois anos depois de ter sido surpreendido pelo colapso do Sudeste Asiático, o mundo começa a se recuperar do terremoto financeiro que atingiu em cheio a Rússia e o Brasil e ainda afeta o comércio internacional. Mas um estudo do banco de investimentos americano Goldman Sachs, ainda não divulgado, prevê também uma melhora dos volumes e dos preços dos produtos exportados pelas economias emergentes aos países ricos.
Em 1996, antes da crise financeira começar na Tailândia, os volumes de exportações dos países em desenvolvimento aos industrializados haviam aumentado 9% em relação ao ano anterior. Em 1998, quando a Rússia decretou moratória de sua dívida externa, o crescimento foi de apenas 3,1%. Para 1999 esperamos uma recuperação desse crescimento, que deve ficar entre 5% e 5,5%, disse Paulo Leme, economista chefe para economias emergentes da Goldman Sachs.
A Moodys, empresa privada de classificação de riscos em investimentos, tinha feito seu próprio estudo, chamando atenção para um problema que, a seu ver, é a consequência mais importante e de maior duração da crise financeira: o excesso de capacidade instalada para a produção de commodities e manufaturados padronizados, que pode levar quatro anos para ser corrigido.
Ou seja, a oferta mundial de alguns produtos (como soja, café, ferro guza, aço e carros) é maior do que a demanda, especialmente agora que a crise financeira provocou uma recessão. Isso leva a uma queda nos preços e a possíveis problemas para economias que dependem das receitas de suas exportações para saldar seus compromissos externos. E o resultado desse desequilíbrio pode ser uma queda nos investimentos externos nesses países.
A Goldman Sachs traça um futuro mais otimista porque leva em conta o efeito da retomada de crescimento da economia mundial que, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), será de 2,3% em 1999 e de 3,4% no próximo ano. Isso leva a um aumento da demanda, disse Leme. Nas suas previsões, além dos volumes, os preços das exportações dos países emergentes também aumentarão.
Os índices da Goldman Sachs apontam para um crescimento de 12% nos preços das commodities nos próximos 12 meses (de junho de 1999 a junho de 2000). Isso se deve especialmente à retomada dos preços do petróleo, explica Leme. O preço do barril, que está em US$ 16,5, deve aumentar para US$ 18,5 até dezembro e possivelmente chegue a US$ 19,5 no próximo ano.
As previsões de aumento dos preços dos metais da Goldman Sachs são mais conservadoras: 5%. Mas os preços dos produtos agrícolas (entre eles soja e suco de laranja) devem subir 10% nos próximo doze meses.
Os metais usados pela indústria passarão a custar mais caro porque haverá uma retomada do crescimento na Ásia e, portanto na demanda, disse Leme. Segundo ele, o cobre, que custava 60 centavos a libra poderá chegar a custar 75 centavos a libra.
A Goldman Sachs também prevê uma retomada dos fluxos de capital, em 1999 e 2000. De 1997 a 1998, devido à crise financeira, houve uma forte redução da exposições dos bancos nos países emergentes e foram amortizados quase US$ 150 bilhões em linhas de crédito comerciais e interbancárias para a Ásia e a América Latina, explicou Leme. Como esse processo de pagamento de dívida já encerrou o ciclo e as economias dos países industrializados voltarão a crescer, serão feitos novos investimentos.
Os retornos dos ativos no G-7 (grupo dos sete países mais ricos) são medíocres e já começamos a ter indício de aumento das linhas de crédito comerciais na Ásia e no Brasil, disse Leme. No caso do Brasil, a Goldman Sachs prevê um superávit na balança comercial deste ano de US$ 3 bilhões (em vez dos US$ 11 bilhões previstos no acordo com o FMI). As exportações brasileiras continuarão deprimidas este ano, mas devem se recuperar no próximo ano, acrescentou.
Um dos motivos é que o câmbio brasileiro esteve sobrevalorizado durante muitos anos. E mesmo que o real hoje seja mais barato, recuperar a parcela de mercado perdida no passado demora. Além do mais, o Brasil terá que competir com os países asiáticos que desvalorizaram suas moedas em 30% há dois anos.
Tanto a Goldman Sachs quanto outros grandes bancos americanos apostam num real ainda mais barato. Em dezembro, cada dólar deve estar valendo pelo menos R$ 1,8. Isso porque a retomada do crescimento da economia brasileira, no final deste ano, deve levar a um aumento das importações. O desequilíbrio pode acabar levando a uma pressão sobre a moeda. Mesmo nesse cenário otimista, os investidores estão cautelosos em relação ao Brasil, que ainda não deu sinais de que continua com pressa para aprovar mais reformas - como prometeu o presidente Fernando Henrique Cardoso.Arquivo FolhaEconomia GlobalGoldman Sachs aponta crescimento de 10% nos preços agrícolas em 12 mesesAgência Estado





