Recuperação lenta de salários inibe sensação de crescimento
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segunda-feira, 02 de outubro de 2000
Agência Estado De São Paulo 
A lenta recuperação do rendimento real dos trabalhadores, apesar do aquecimento da atividade econômica e da redução do desemprego, é um dos principais motivos do ceticismo de considerável parcela da população em relação aos rumos da economia brasileira, segundo avaliações de especialistas que acompanham o desempenho das variáveis de emprego e renda. A melhora generalizada dos indicadores não repercute no dia-a-dia de grande parte dos trabalhadores, cujos orçamentos continuam apertados, mesmo que algum membro da família tenha encontrado emprego, de acordo com pesquisadores do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese).
Segundo a entidade, nos últimos anos, após o fim da indexação dos salários, a maioria das categorias profissionais conseguiu a recomposição das perdas com a inflação. Mas isto só valeu para dois terços dos assalariados com registro em carteira e não se aplica aos trabalhadores informais, que já chegam a 49% da População Economicamente Ativa (PEA), só na região metropolitana de São Paulo. Entre 1996 e 2000, a taxa de ocupação nesta área cresceu 13,8%, enquanto o rendimento médio real caiu 14,7%. Na avaliação do Dieese, para que o rendimento real retorne ao nível de 1995, ano em que o trabalhador mais ganhou nesta década, ele tinha de crescer aproximadamente 16%. No balanço nacional feito pelo IBGE, o rendimento médio começou a despencar em 1998, parou de cair em janeiro deste ano e permanece estável até agora.
O descompasso entre a elevação do nível de ocupação e a recuperação dos ganhos tem pelo menos uma causa, segundo estes especialistas: as empresas de fato voltaram a contratar, mas com salários mais baixos. Esta é um das conclusões preliminares de um levantamento do Dieese que deve ser divulgado nos próximos meses. A perda de renda pode resultar dos ciclos econômicos, da alta de inflação e por contratações com remunerações menores, afirma o diretor-técnico do Dieese, Sérgio Mendonça.
Quando houve a desaceleração econômica, as empresas demitiram e agora, com a retomada, estão admitindo, mas pagando menos, endossa o pesquisador de Economia do Trabalho da Unicamp, Marcio Pochmann.
As estimativas de crescimento econômico de em média 4% são positivas, mas ainda é pouco. Para acomodar no mercado todos os brasileiros que precisam trabalhar, o Brasil teria de crescer entre 5% e 6% ao ano, segundo José Pastore, professor da USP. Um estudo da Fipe indica que a recuperação do rendimento pode começar a partir de 2002, levando em conta um crescimento real do PIB entre 3,5% e 4% em 2000 e 2001. A avaliação da instituição é de que, neste ano, ainda se registre uma perda de 0,31% no salário real e de 0,89% no próximo. Em 2002, pode haver uma reversão, com alta de 0,48%.


