Na lista de credores do pedido de recuperação judicial (RJ) feito pela Seara de Sertanópolis (Região Metropolitana de Londrina) constam produtores rurais que entregaram à empresa parte de sua produção e, em razão do processo de RJ, não receberam os valores devidos. A FOLHA já mostrou a situação dos produtores em reportagem veiculada no dia 3 de maio.

Em municípios menores, como Santa Mariana (Região Norte), o débito da empresa chega a R$ 10 milhões, conforme informado pelo Sindicato Rural, atingindo 50 dos cerca de 180 produtores da localidade e trazendo alterações importantes na economia do município, que é basicamente agrícola. A Seara paranaense não possui nenhuma correlação com a Seara S.A., empresa do Grupo JBS.

"A vocação da cidade é a agricultura. Até o pároco da cidade tinha soja depositada (na Seara)", comenta o presidente do Sindicato Rural de Santa Mariana, Anselmo Bernardelli. Obras da igreja ficaram paradas. "(Os produtores) depositavam os grãos em vários lugares, mas a maior parte era lá (na Seara)", afirma o presidente. "É um baque muito grande. São R$ 10 milhões que não são aplicados na cidade."

Produtores relatam que, em Ibaiti (Norte Pioneiro) e em Ventania (Campos Gerais), produtores locais chegaram a saquear unidades da Seara quando souberam do pedido de recuperação judicial em busca de recuperar os grãos entregues à empresa. Apesar de a situação ter ficado tensa no local, a polícia não teria sido chamada. Por meio da assessoria de imprensa, a Seara confirmou os saques, e declarou se tratar de uma ação ilegal. "Foi uma operação revestida de ilegalidade e o departamento jurídico está estudando as medidas cabíveis."

Segundo Haroldo Regazzo, associado do Sindicato Rural de Ibaiti, mais de 20 produtores locais não receberam os valores da produção entregue à empresa de Sertanópolis. "O prejuízo foi enorme para a região." Regazzo, que também tinha grãos com a Seara e é prestador de serviços da empresa, queixou-se do fato de o pedido de RJ ter sido feito em final de safra, depois que os produtores já haviam entregue parte de sua produção. "Infelizmente a má-fé foi muito grande. Ofereceram R$ 2 a R$ 3 a mais que qualquer um daqui já sabendo o que iam fazer em abril."

Aos produtores, a assessoria de imprensa da Seara informou que "trabalhou até o limite de suas possibilidades" antes de fazer o pedido de recuperação judicial. "Quando a situação financeira não era mais sustentável, fez uso da legislação brasileira e solicitou o processo de recuperação judicial."

Sertanópolis
Segundo Antônio Osvaldo Terassi, presidente do Sindicato Rural de Sertanópolis, não são muitos os produtores do município sede da Seara que entregavam soja à empresa. "O povo de Sertanópolis não tinha o costume de entregar para a Seara. Eles (a empresa) preferiam pegar de armazéns e cooperativas. Mesmo assim, tinham alguns produtores que entregavam para ela." Em Londrina, apenas algumas empresas foram afetadas, afirma Narciso Pissinatti, presidente do Sindicato Rural de Londrina. Em cidades menores, como Bela Vista do Paraíso, Primeiro de Maio, Sertaneja e Rancho Alegre (todas na Região Metropolitana de Londrina), por exemplo, o impacto teria sido maior. "Em municípios menores, o baque, o prejuízo foi muito grande." Na sua visão, entretanto, a atitude da Seara foi correta. "A empresa não pode fechar as portas. Tem que continuar trabalhando para recuperar."

Safras frustradas
"Isso (o pedido de recuperação judicial) foi absolutamente danoso para a atividade. A Seara é um player importante. Perde todo mundo porque reduz a oferta", comenta Antônio Sampaio, vice-presidente da Sociedade Rural do Paraná (SRP). "Espero que haja a recuperação porque sabemos que a situação é dramática. Obviamente vai haver um desgaste terrível. Estamos vindo de um ano terrível para os produtores, com duas safras frustradas." O vice-presidente, no entanto, ressalta que os produtores não devem "colocar os ovos em uma mesma cesta" e não entregar sua produção a apenas uma empresa. "Todos estamos sujeitos a isso (essa situação). O desastre nunca tem uma causa só. É uma sequência de fatos. Tivemos um ano péssimo no ano passado, todo mundo passou com a água no peito."

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