Recuperação da economia mundial ainda gera dúvidas - Robert Samuelson
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de maio de 1999
Robert Samuelson, da Newsweek 
O que sabemos a respeito da crise financeira global é que não sabemos muita coisa. Em cada estágio, ela nos causou surpresa.
Dificilmente alguém a viu chegando em meados de 1997. E nem mesmo os seus acontecimentos mais dramáticos - desde a queda de Suharto até a decisão da Rússia de cessar o pagamento de sua dívida - foram amplamente previstos. Por isso, existem amplos motivos para não acreditar muito na afirmação mais recente desta sabedoria convencional, que diz que o pior já passou e que a economia do mundo está se recuperando. Podemos estar vendo o arrebol ou um falso alvorecer.
Para os que acreditam, são abundantes os sinais favoráveis. Na semana passada, o Fundo Monetário Internacional (FMI) previu uma recuperação global. Em 1999, afirma o Fundo, a economia mundial irá ter apenas um magro crescimento de 2,3%. Mas, no ano 2000, o ritmo aumentará para 3,4%.
O FMI não está sozinho. A Merrill Lynch faz uma pesquisa regular entre os administradores financeiros. A última pesquisa abrangeu 293 instituições financeiras - bancos, fundos de pensão companhias de seguros, fundos mútuos - que administram mais de US$ 8 trilhões de fundos de investimento. O otimismo econômico está crescendo, disse a Merrill Lynch. Na Europa, 74% das administradoras de fundos esperam uma forte economia daqui a um ano. Entre as administradoras japonesas, 61% estão otimistas. Nos Estados Unidos, as administradoras de fundos estão elevando suas previsões de lucros.
O que explica esta reviravolta é a reflação - ou a percepção dessa reflação, um termo arbitrário que significa que as taxas menores de juros impedirão a deflação (queda dos preços). Durante todo o ano passado, o medo da deflação foi uma espécie de fantasma assombrando os mercados financeiros. Deprimidos pela baixa demanda mundial, os preços das matérias-primas (petróleo, grãos, minerais) já declinaram acentuadamente. Uma deflação mais vasta poderia provocar uma espiral econômica declinante.
Os lucros cairiam, pois as companhias aceitaram os preços mais baixos dos produtos mas pagaram custos fixos, principalmente salários. Algumas companhias endividadas deixariam de pagar os empréstimos que tomaram.
Consequentemente, o comércio sofreria. Isso impediria recuperações lideradas pelas exportações na Ásia e na América Latina. Mas os cortes nas taxas de juros nos Estados Unidos, Europa e Japão dissiparam por enquanto esses temores. No final do ano passado, o Federal Reserve (banco central americano) reduziu sua principal taxa de juros de curto prazo de 5,5% para 4,75% em três etapas. Em princípios de abril, o Banco Central Europeu reduziu sua taxa principal de 3% para 2,5%.
Anteriormente, as taxas européias haviam sido reduzidas de cerca de 3,3% para 3%. E as taxas de curto prazo do Japão estão quase zeradas.
Os preços das matérias-primas se estabilizaram. Acredita-se que o crédito mais fácil garante a expansão e impede a deflação. Promove a tomada de empréstimos e facilita os gastos e isso, por sua vez, impede a queda dos preços.
O FMI também ajudou. Sua administração da crise, embora muitas vezes caótica, contribuiu para evitar um colapso simultâneo dos países em desenvolvimento. Assim a recessão da Coréia do Sul está terminando, exatamente no momento em que a recessão no Brasil está começando. Os declínios chocantes amorteceram o efeito adverso sobre a economia global. O medo diminuiu. Num artigo de primeira página, no dia 14 de abril, The Wall Street Journal estampou esta manchete: Em todo o globo, os sinais apontam para os dias derradeiros da crise financeira. Mas, essa melhoria poderia ser mais psicológica do que real? Em última análise, a economia globa é a soma de suas partes.
Se as partes não funcionarem bem, o todo também não funcionará. Pelas estimativas do FMI, os Estados Unidos, a União Européia, formada por 15 países, e o Japão são responsáveis por quase a metade da produção econômica do mundo. (Os Estados Unidos respondem por 21%; a União Européia por 20%; e o Japão por 7%). Mas existem motivos de preocupação em cada um deles.
O otimismo em relação à Europa e ao Japão se baseia no fato de estarem agora copiando a fórmula dos Estados Unidos para o sucesso econômico. As companhias estão se reestruturando e cortando os custos. Os lucros e os preços das ações melhorarão. Muito bem.
Infelizmente, estas coisas boas envolvem algumas coisas ruins.
Reestruturação frequentemente significa demissão de empregados.
Quem irá dar emprego aos desempregados? Nos Estados Unidos, a economia cria novas empresas e possibilita a expansão das companhias bem sucedidas. Mas a Europa e o Japão não fazem isso tão bem assim. No Japão, as regras e os carteis desestimulam a criação de novas companhias. Na Europa, os altos tributos sobre a folha de pagamentos e as normas rígidas dissuadem as contratações de empregados.
Até mesmo com baixas taxas de juros, a Europa e o Japão podem não experimentar um crescimento forte. Nos Estados Unidos, o problema é exatamente o contrário: a economia teve um desempenho tão bom que pode estar fadada a um recuo. O endividamento pessoal é elevado. O mercado de ações pode estar
supervalorizado. Os fortes gastos dos consumidores poderão se enfraquecer. E os Estados Unidos foram os que mais ajudaram outros países, adquirindo suas exportações. Em 1998, a conta corrente dos Estados Unidos (uma medida ampla do comércio) registrou um déficit de US$ 233 bilhões . Em contraste, o Japão e a União Européia registraram superávits de US$ 122 bilhões e US$ 78 bilhões, respectivamente. Se os países ricos não comprarem seus produtos, os países mais pobres lutarão para sobreviver.
Os Brasis, os Méxicos, as Coréias do mundo enfrentam também o risco constante da fuga de capitais. Na semana passada, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Robert Rubin, esboçou as medidas para que as instituições mundiais de empréstimo sejam mais prudentes na concessão de créditos aos países mais pobres. Como observou Rubin, as entradas excessivas de capital conduzem a saídas abruptas. As expansões rápidas geram estouros. Mas, se as novas restrições amedrontarem os fornecedores de empréstimo, eles poderão retirar os empréstimos existentes e causar a fuga que Rubin deseja evitar. O FMI afirma, por exemplo, que todos os países de mercado emergente têm US$ 90 bilhões de bônus estrangeiros vencendo em 1999 e 2000. Se a maioria desses créditos não for refinanciada, os países terão que reduzir seus gastos.
Ninguém sabe como irão agir essas correntes entrecruzadas. Todo aquele que lê as previsões econômicas descobre rapidamente que, mesmo as mais otimistas, estão ressalvadas com restrições e confissões de dúvida. A recuperação global poderia estar logo ali, na virada da esquina, mas a realidade atual é que a maioria das economias está ficando pior, não melhor. O crescimento está ficando mais lento na Europa e na China; a recessão do Japão éstá se aprofundando. O mesmo acontece na América Latina.
A economia nunca foi uma ciência e agora o é ainda menos do que o foi há alguns anos. A importância crescente do comércio das finanças globais, interagindo com as economias nacionais, criou novas forças que mudam constantemente e que são apenas obscuramente entendidas.
Ninguém é o encarregado, o responsável pela economia mundial e as pessoas que estão tentando compreender sua atual situação angustiante tiveram de improvisar. Seria tranqilizador e dramático declarar que eles foram bem sucedidos. Mas a verdade mais melancólica é que nós não sabemos - e nem eles sabem.


