Curitiba - Nas últimas semanas uma onda de protestos contra o sistema financeiro e a política econômica se alastrou por países europeus. Mais de 80 cidades da Europa como Roma, Barcelona, Bruxelas e Frankfurt - centro financeiro da Alemanha - participaram das mobilizações. Nos Estados Unidos, os protestos já têm mais tempo. Lá, manifestantes ocuparam Wall Street, centro econômico de Nova York. No Brasil, as manifestações têm ocorrido, porém, com cunho mais político. Mas desde ontem, um grupo acampanhou na Cinelândia, no Rio de Janeiro, inspirado nos protestos mundo afora.
A ''dor ainda está na origem da ferida'' que são os Estados Unidos, Europa e Japão, destacou o mestre e doutor em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e sócio-fundador da ''butique de investimentos'', Inva Capital, Luciano D'Agostini. Segundo ele, a crise já chegou ao Brasil, mas a população ainda vai demorar um tempo para sentir os efeitos.
Ele acredita que a população ainda não está se mobilizando porque o País vive um recorde de emprego e a taxa de desemprego é a mais baixa desde 1999. No entanto, ele alertou que o brasileiro está mais endividado do que na crise de 2008. D'Agostini acredita que 2013 e 2014 podem ser anos difíceis para a economia brasileira por conta dos efeitos propagadores da crise internacional.
D'Agostini prevê que 2013 e 2014 podem se transformar na ''tempestade perfeita'' com os problemas nos Estados Unidos, Europa e Japão, a massa de desempregados e a desaleceração da economia da China.
Segundo o economista, o Brasil tem instrumentos para passar pela turbulência internacional por um período de seis meses a um ano. As ''armas'' brasileiras contra a crise incluem controle monetário e fiscal com ações como a redução dos juros, o controle do crédito e o controle de entrada e saída de capitais.
Ele destacou que após comprar carro, produtos da linha branca e imóvel, a população sofre de um ''fenômeno de ilusão monetária''. ''O governo Lula levou 35 milhões de brasileiros da pobreza para a classe média baixa e média. O primeiro dinheiro que estas pessoas ganharam, foram às compras e esqueceram de poupar'', explicou.
Grande parte das compras foi realizada com crédito caro. Foi formada uma ''bolha de crédito'' por carros e imóveis. A ''bolha imobiliária'' também está formada no Brasil. A partir de 2013 e 2014 haverá uma massa de plantas de imóveis sendo entregues, o que deve gerar uma redução dos preços.
Para o economista e consultor de empresas, Eduardo Cosentino, o brasileiro não tem participado tanto de mobilizações porque é mais acomodado e porque a crise ainda não chegou ao bolso.
Ele também não descartou a possibilidade de a crise atingir o Brasil. Para tentar driblar isso, a estratégia, segundo Cosentino, vai ser fomentar o crescimento do mercado interno, como na crise de 2008, reduzir os juros, trabalhar a taxa cambial para que o dólar se valorize e estimule as exportações. O economista acredita que as redes sociais podem ajudar nas mobilizações, mas ainda são pouco utilizadas para discussão econômica no Brasil.
O professor de Economia da UFPR, Fábio Dória Scatolin, disse que, como no Brasil a economia está indo bem fica mais difícil mobilizar as pessoas. Nos Estados Unidos, a mobilização é intensa porque só o endividamento dos jovens com o sistema bancário saltou de US$ 50 bilhões para US$ 800 bilhões.

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