Recessão japonesa ameaça emergentes
O Japão entrou oficialmente ontem em recessão. O governo anunciou o segundo crescimento negativo consecutivo nos últimos dois trimestres. O Produto Interno Bruto (PIB) japonês caiu 1,3% entre janeiro e março deste ano. De outubro a dezembro, a economia japonesa havia se retraído 0,4%. Em relação ao primeiro trimestre do ano passado (anualizado), a queda do PIB foi de 5,3%.
A maioria dos economistas afirma que o Japão se encontra agora em situação pior do que a sofrida com a primeira crise do petróleo, há mais de 23 anos. Na época, a retração da economia japonesa não superou a taxa de 0,5%. Com o anúncio de ontem, o ano fiscal japonês (que termina em março), encerrou com queda de 0,7% no PIB. Ou seja, o governo de Tóquio não conseguiu a meta oficial de levar a economia do país a um crescimento de pelo menos 0,1%.
Antes mesmo da divulgação da queda do PIB japonês, o pessimismo já havia tomado conta dos mercados asiáticos. Os operadores ficaram mais receosos após o secretário do Tesouro norte-americano, Robert Rubin, ter feito declarações que foram interpretadas como desinteresse dos EUA em intervir no mercado japonês para conter a desvalorização do iene, que caiu à cotação mínima de 144,73 por dólar, o nível mais baixo nos últimos oito anos.
Frederic J. Brown/France PresseNa ChinaPainel mostra cotações japonesas: BC chinês teve que intervirA Bolsa de Tóquio fechou com ligeira alta de 0,05%, mas a Bolsa da Coréia do Sul despencou 8,09%. Esse é o pior resultado da Bolsa de Seul desde o dia 28 de janeiro de 87. Segundo especialistas, a desvalorização da moeda japonesa gerou temores sobre um aprofundamento da crise asiática. Além disso, o iene fraco favorece as exportações japonesas, concorrentes diretas das coreanas. Na China, o Banco Central teve de intervir ontem no mercado de câmbio para proteger o yuan de ataques especulativos. A intenção das autoridades locais é manter a moeda acima de 8,2800 unidades por dólar.
O estrategista-chefe para mercados emergentes do Deutsche Bank Securites, Geoffrey Dennis, disse que o possível colapso do iene é a mais nova ameaça para as economias emergentes. Ele prevê que a moeda japonesa chegará a 150 por dólar nos próximos meses. Se passar desse patamar, o iene poderá desencadear um temível efeito catártico na Ásia, com desvalorizações na China e Hong Kong. Dennis recomenda que os investidores limitem suas posições nos mercados asiáticos e carreguem nos latino-americanos e emergentes do Leste. Brasil e Polônia estão entre seus favoritos.
Em relatório do último dia 9, Dennis explica que a importância do iene neste momento vem do fato de o Japão ser o principal parceiro comercial da maioria dos países asiáticos. A contínua queda do iene poderá provocar uma nova onda de desvalorizações na Coréia e Tailândia, abalar o relativamente estável dólar de Taiwan e, mais grave, quebrar a política de não-desvalorização da China.
Mesmo com os dados negativos do PIB e com o iene despencando, o Banco do Japão decidiu não alterar a sua política monetária e ratificou a sua principal taxa de juro, a de redesconto, em 0,5%, a mais baixa desde setembro de 1995. Mas, diz um comunicado do Conselho de Política Monetária do BC japonês distribuído ontem, pela primeira vez a decisão de não modificar a taxa de câmbio não foi por unanimidade.
Dennis acredita, entretanto, que o iene continuará a cair. Ele aponta seis pontos nos quais baseia a sua previsão: 1) os fundamentos da economia japonesa estão fracos tanto em termos absolutos quanto em comparação aos EUA, 2) o diferencial entre os juros nos EUA e no Japão está aumentando, 3) o Big Bang (desregulamentação dos mercados financeiros) do Japão aumentou o fluxo dos fundos domésticos para os ativos em moedas estrangeiras, 4) nenhuma medida significativa em termos de reforma estrutural ou estabilização financeira deverá ser implementada no Japão antes das eleições para o Senado em 12 de julho, 5) não há fim aparente para a deterioração das economias asiáticas e, 6) crescem os temores de deflação no Japão.Toru Yamanaka/France PresseNo JapãoPessimismo tomou o mercado antes do anúncio da queda do PIBAgência Estado





