A agência de análise de risco Fitch Ratings anunciou ontem o rebaixamento da nota do Brasil de BBB-, a última como grau de investimento, para BB+, que considera risco econômico. Analistas ouvidos pela FOLHA afirmam que o efeito principal da medida deve ser a saída de dólares do País, o que elevará a cotação da moeda norte-americana e causará inflação para o consumidor final. No entanto, dizem que o tamanho do prejuízo é desconhecido porque muitos investidores esperavam a decisão.
Como a Standart & Poor’s (S&P) já havia reduzido a nota brasileira em setembro último, o corte foi o segundo entre as três principais agências de avaliação do mundo. A terceira, a Moody’s, colocou no início do mês a avaliação sobre o País em revisão. Desta vez, porém, há reflexo direto sobre muitos fundos de investimentos de capital especulativo, que impõem como exigência o resgate dos recursos em caso de dois cortes de nota.
O resultado da fuga de recursos será a elevação da cotação do dólar, o que encarecerá produtos importados ou mesmo os fabricados nacionalmente, mas que dependam de insumos com origem no exterior. O pão francês é um exemplo, por ser feito em boa parte do ano com trigo estrangeiro.
Isso porque existe interdependência financeira entre países, o que faz com que o dinheiro migre para destinos onde a rentabilidade é maior e o risco, menor, explica o professor de economia Adilson Volpi, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). "O rebaixamento significa que o País demonstrou que, em curto prazo, não consegue fazer superavit primário para pagamento de juros de dívidas", diz, ao lembrar que há ainda o risco de não economizar também em 2016.

CRISE POLÍTICA


Para o presidente do Sindicato dos Economistas de Londrina, Ronaldo Antunes, o mercado financeiro já havia precificado o rebaixamento da nota brasileira, o que poderá diminuir o impacto do corte. "Mas a consumação tende a aprofundar mais a crise econômica, que tem origem na incapacidade de gestão e na crise política interna."
O economista Roberto Zurcher, da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), afirma que há menor prejuízo sobre os investimentos produtivos, que são de longo prazo e não conjunturais, ainda que também possam ser alvo de saques de alguns fundos. Ele também descarta o risco de calote de dívidas da União. "Essa fuga de capital pode ser bancada tranquilamente pelas reservas internacionais do País, mas existe uma pressão sobre o câmbio e sobre a inflação que preocupa."
Caso a situação persista por muito tempo, há o risco de elevação do desemprego. Por isso, a expectativa dos analistas é de que o "fato novo" pressione o governo federal a promover cortes de gastos e force o Congresso a aprovar as propostas paradas devido à crise política. "Só poderemos resolver essa questão quando se decidir se esse governo fica ou sai, para termos um governo com força política e poder de gestão", diz Antunes.

Levy

A saída do governo do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, voltou a ganhar força ontem, depois que ele não quis responder se ficaria no cargo, em entrevista coletiva sobre o rebaixamento da nota (leia na página 3). Decisões à revelia de Levy, como a redução da meta de superavit de 0,7% para 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2016, por exemplo, indicariam que a permanência dele se dará somente para não agravar a crise política. "Se ele saísse, teríamos mais dificuldades ainda porque ele é respeitado pelo mercado lá fora", crê Zurcher.

Juros nos EUA


O Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, elevou ontem os juros de 0,25% para 0,50%, pela primeira vez desde 2006. O professor da UFPR já alertava, antes do anúncio, de que a fuga de dólares seria impulsionada por outros fatores. "Quando os Estados Unidos elevarem os juros, vão arrebanhar mais investimentos porque são a economia mais forte do mundo, o que será um duplo baque para o Brasil", conclui Volpi.

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