O rebaixamento da nota do Brasil de grau de investimento (BBB-) para risco especulativo (BB+), anunciado na quarta-feira pela agência internacional Standart & Poor’s, fará com que diminua a entrada de capital estrangeiro em investimentos produtivos no País e no Paraná, o que tende a dificultar o desenvolvimento de empresas e a prolongar a retração econômica. Analistas afirmam que a medida também pressionará o governo federal a promover cortes de gastos expressivos para ganhar apoio do Congresso para os ajustes fiscais, medida também considerada recessiva e, ao menos para a maioria dos economistas, necessária.
Pela agência, o País recebeu a nota de grau de investimento em 2008. Conforme informações do Banco Central reunidas pela Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), a entrada de investimentos estrangeiros em 2007 havia sido de US$ 35 bilhões. Como a crise estourou no ano seguinte, quando o valor chegou a US$ 45 bilhões, caiu em 2009 para US$ 26 bilhões, mas subiu a US$ 49 bilhões em 2010 e a US$ 67 bilhões em 2011, para se manter acima de US$ 60 bilhões desde então. "Então a nota é algo que tem impacto, mas, de qual tamanho, vamos ver somente no ano que vem", diz o economista Roberto Zurcher, da Fiep.
Para ele, o Paraná, que tem se mostrado um bom lugar para investimentos estrangeiros, principalmente no agronegócio e no setor automotivo e de peças, sairá perdendo. "Os investidores não conhecem cada região de cada país e buscam informações nessas agências", observou Zurcher.
Como efeito em curto prazo, o risco de saída do dólar do País elevou em 1,3% a cotação, a R$ 3,85, mesmo com leilões de US$ 1,5 bilhão promovidos pelo Banco Central para conter a alta. A expectativa é que a valorização se estenda nos próximos meses, o que pode refletir na inflação interna. Risco que aumenta se as outras duas principais agências mundiais, a Moody’s e a Fitch, que mantêm o Brasil como grau de investimento, tomarem a mesma direção, diz o consultor econômico da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil), Marcos Rambalducci. "De forma geral, muitos investidores colocam em contrato que, quando duas agências reduzem a nota de risco, são obrigados a retirar os recursos", conta.
Outro efeito é que, com selo de possível mau pagador, ocorram altas nos juros em empréstimos internacionais para o governo ou para empresas. Em médio prazo, a tendência é que isso leve a ajustes em empresas, com demissões, alta nos preços de produtos e menor consumo, o que atinge a população em geral. "Não entrarão novos recursos em um segundo momento, o que pode fazer com que outras agências sigam a mesma linha. Se melhorasse, a situação se reverteria logo, mas vamos passar por 12 meses de sacrifício com o ajuste", acredita Rambalducci.

Pressão no governo


O presidente da Fiep, Edson Campagnolo, afirma que o rebaixamento era "aguardado por todos com temor", mas que pressiona a presidente Dilma Rousseff e o Congresso por um acordo sobre o ajuste fiscal. "Percebemos a União e os governos estaduais sem fazer o dever de casa, sem cortar gastos. Não será possível elevar impostos sem reduzir os gastos."
A resposta, afirma Campagnolo, veio em seguida. "Vimos a presidente hoje (ontem) dando um ultimato para que os ministros cortassem gastos", diz. "Não vai ter outra saída e, por isso, todos mostram esse nível de pessimismo", completa.
Zurcher e Rambalducci preveem que somente no segundo semestre de 2016 é que o País começará a se recuperar. "As pessoas estão cautelosas e tendem a continuar assim até a inflação ceder", conta o economista da Fiep.

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