Reaproveitar alimentos garante economia
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terça-feira, 27 de setembro de 2005
Fernanda Mazzini<br>Reportagem Local 
No país do desperdício, diariamente, quilos de alimentos vão parar no lixo. É um hábito cultural: folhas de legumes são desprezadas e sobras de alimentos são jogados fora. Atitudes como essas são bastante comuns em todos os locais: residências, supermercados, centros atacadistas, durante o transporte e até na própria lavoura. O pior é que grande parte disso tudo poderia ser reaproveitado na alimentação humana. Renderia uma boa economia doméstica, sem perdas dos componentes nutricionais.
Segundo estimativas da Associação Paranaense dos Supermercados (Apras), entre 7% e 8% dos hortifruti expostos nas gôndolas estragam nos pontos de venda. O destino para esses produtos é uma política de cada supermercado, que vai desde à doação para instituições de caridade, encaminhamento para produção de adubos orgânicos e alimentação para animais. Nos supermercados, o maior desperdício é de produtos hortifruti, que estragam mais facilmente.
''É uma questão cultural, os consumidores manipulam frutas, legumes e verduras, deixam cair, batem e tudo isso faz com que eles estraguem mais rápido'', observa Valmor Rovaris, superintendente da Apras. Segundo ele, as perdas dos supermercados estão sendo reduzidas a cada ano. Atualmente, o índice geral de sobras é inferior a 1,5%, mas era superior a 2% há quatro anos. ''O setor está preocupado com a geração de lixo, mas a doação é um processo de risco porque se ocorrer algum problema a culpa cai sobre o doador'', comenta.
Segundo a nutricionista Beatriz Lourenço Venegas Ulate, professora do curso de Nutrição da Unopar, folhas e talos de legumes - como beterraba, cenoura, brócolis e couve-flor - podem ser preparados normalmente. Elas tem quase o mesmo valor nutricional dos legumes com a diferença de conterem um alto teor de fibras, que ajudam no funcionamento do intestino. ''O Brasil tem muita fartura de alimentos e não é hábito aproveitar folhas e talos dos legumes'', afirma.
Mas com criatividade, sobras das refeições podem render pratos bem saborosos. É como ensina o chefe de cozinha Djalma Araújo, professor do curso sequencial de Gastronomia da Unopar. ''Todos os vegetais podem ter suas folhas aproveitadas, trazendo muitos benefícios à saúde'', afirma. Por exemplo, talos e folhas de legumes podem ser preparados de forma refogada e até utilizadas para rechear panquecas e tortas. A água em que a beterrada é cozida - que fica com a cor avermelhada - pode ser adicionada em massas de panquecas. A coloração garante um charme a mais ao prato.
Sobras de carnes, como bifes, carne de panela e assados, podem ser transformados em bolinhos, croquetes e utilizados em ingredientes de sopa, assim como legumes refogados. O arroz pode ''virar'' arroz de forno, risoto e canja. Com o feijão é possível fazer virados, bolinhos, tutu e até canapés. Um frango assado pode ser desfiado e utilizado em recheios de tortas. O peixe frito também vira croquete, bolinho ou recheio de torta. ''O que não deve ser feito é congelar e descongelar o alimento várias vezes, que provoca a sua deterioração'', explica Araújo.
Os consumidores dizem que, frequentemente, utilizam as sobras de uma refeição no preparo de outros pratos. Na casa da artesã Marina de Oliveira o pernil assado pode virar sanduíche; carnes assadas recheiam tortas ou incrementam a farofa; já o feijão é transformado em virado ou tutu. ''Não costumo jogar comida fora, a não ser produtos que não permitem aproveitamento, como a maionese. Os preços do jeito que estão não permitem desperdícios'', diz.
A cozinheira Lourdes Silva também não costuma desperdiçar alimentos. ''Ponho a carne na farofa, faço bolinhos. Hoje não temos condições de jogar comida fora'', afirma. Já a dona de casa Neusa de Souza aproveita todos os componentes dos alimentos. ''Moro em chácara e uso tudo, preparo folhas de cenoura e beterraba refogadas, faço mamão verde refogado e todos comem. Aprendi com a minha mãe'', comenta.


