Real obriga brasileiro a mudar hábitos
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sábado, 04 de outubro de 1997
Bete Fagundes Londrina 
Josoé de CarvalhoLição de casaVanderlei Sereia: Crédito não mata. O que mata é o juro alto, estrela da política monetária restritiva do governo e único mecanismo de controle da economiaAjustar-se ao orçamento familiar, analisar as taxas de juros, comparar os preços à vista com os parcelados (pesquisa), pechinchar, não ceder à tentações e poupar. Estas são algumas regras que, dependendo do caso, tiram o consumidor do sufoco e abrem perspectiva de ascensão na escala de consumo, ou seja, a conquista de um novo padrão de vida. Um padrão real.
O economista Vanderlei José Sereia, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), cita estas regras dizendo que, na verdade, não existe uma receita para o consumo indolor. O que deve existir é uma boa relação do indivíduo com o mercado consumidor. Antes de tudo, é preciso sanear a casa.
Sanear, é aceitar o fato de que o padrão de vida mudou. As pessoas costumam resistir, mas o melhor ainda é ajustar-se. É errado, por exemplo, descobrir uma conta para cobrir outra. Não se pode pensar que a relação de troca vai melhorar. Lição número um: cortar os gastos - só não cortar a perspectiva de que, com novas fontes de renda, tudo vai melhorar.
Juro é um problema sério, segundo o economista. Antes do Real, a população confundia juros com inflação. Depois, na queda da inflação, as pessoas pensavam que era fácil pagar juros de 2% ou 5% ao mês. Foi o período que mais se endividaram, até mesmo porque o crédito foi facilitado.
O economista lembra que o consumidor em geral considerava apenas o valor da parcela mensal e a totalidade das prestações; esquecia o mais importante, os juros. Isso num cenário em que o funcionalismo federal, por exemplo, caminhava para os 1.000 dias sem reajuste salarial. Um outro comportamento da época foi fugir dos bancos, porque superestimava-se o valor da moeda no bolso.
Hoje o consumidor está mais consciente, houve até retração de consumo e reavaliação do poder da moeda. Quando as pessoas descobriram que não era fácil conseguir e reter a moeda, voltaram para os bancos. Agora sabem que a remuneração mesmo baixa, é real, compensa, observa o economista.
Crédito não mata, diz ele. O que mata é o juro, o juro alto - estrela da política monetária (restritiva) do governo, único mecanismo de controle da economia. Analisar friamente os juros, calculando o impacto na renda familiar, é a segunda grande lição. Aí entra a comparação dos preços à vista com os parcelados, a pesquisa. O consumidor precisa conhecer, acompanhar os preços; ainda existe muita diferença de preços no mercado.
Com o dinheiro no bolso, o economista recomenda a compra à vista, pechinchando, antes. Sem recurso suficiente, o consumidor pode recorrer ao crédito. Não há nenhum mal nisso, ele explica, adiantando que quanto menor o parcelamento, menor o juro.
Vanderlei explica ainda que pagar em três vezes é o mesmo que pagar em dez, ou seja, se o juro é alto, o prejuízo é do mesmo tamanho. O parcelamento é uma armadilha, faz as pessoas entrarem com tudo no mercado consumidor, muitas vezes sem estudar as condições de pagamento e o comprometimento da renda, analisa. Pesquisando, o consumidor também descobrirá a incidência, ou não, de juros embutidos no preço.
O economista acha, enfim, interessante a poupança para a família adquirir bens não básicos, endividando-se menos. Vanderlei José Sereia, que não condena a incorporação de crédito bancário no salário da família (se o custo não for alto), alerta que antes de comprar, o consumidor precisa pensar até mesmo no risco do desemprego.


