O desemprego no campo atingiu 800 mil pessoas desde o Plano Real e até o final da colheita da próxima safra outros 100 mil postos de trabalho devem desaparecer, em função da redução de 300 mil hectares de área plantada. Este quadro foi apresentado ontem pelo presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Antônio Ernesto de Salvo, ao fazer um balanço das atividades do setor este ano.
A renda agrícola deve fechar o ano com crescimento de apenas 2,5%, inferior ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do País, estimado entre 3,5% e 4%. Salvo citou estudo do professor da Universidade de São Paulo (USP) Fernando Homem de Mello, que estima a perda de renda agrícola no Plano Real em 30%.
O presidente da CNA destacou que o bom desempenho do complexo soja e do café são exceções, impulsionadas pela Lei Kandir, que isentou os produtos primários ICMS nas exportações. A maior receita cambial destes produtos impulsionou as vendas externas da agricultura em 18,6%, enquanto a média nacional ficou em 11%.
Os indicadores da CNA apontam um superávit na balança comercial agrícola de US$ 7,8 bi nos dez primeiros do ano, ou US$ 2,1 bi a mais que no mesmo período do ano passado. ‘‘Sem a agricultura, o déficit da balança comercial brasileira previsto em US$ 9 bi, explodiria’’, ressaltou Salvo.
Medidas O presidente da CNA defendeu três medidas para favorecer o crescimento do setor: a contenção das importações, a revisão do endividamento e do crédito rural e a redução dos tributos. Disse que a agricultura serviu de moeda de troca nos acordos do Mercosul, fazendo com que o País deixasse de ter superávits na balança comercial agrícola com o bloco regional, passando a déficits crescentes, atingindo US$ 2,7 bilhões.
Salvo espera que a reforma tributária possa, no próximo ano, eliminar ou reduzir significativamente os impostos sobre a cesta básica e os insumos agrícolas. Segundo a CNA, a carga tributária sobre os alimentos é de 34%, atualmente.
O recente pacote de medidas do governo, na avaliação do presidente da CNA, deverá prejudicar ainda mais o setor agrícola, encarecendo o crédito de quem tomou recursos de fontes externas, por exemplo, e reduzindo o poder de consumo. Salvo afirmou que, dos US$ 8,5 bilhões prometidos para o custeio da safra, até agora foram liberados apenas US$ 2 bilhões, com taxas prefixadas de 9,5% ao ano. Fora da CNA, a leitura que muitos agricultores fazem do tratamento que recebem do governo é que tudo é ‘‘orquestrado’’ no sentido de desestabilizar o setor agropecuária e passar para a sociedade uma imagem de incompetência e inadimplência, que utiliza os recursos inadequadamente. Na verdade, os recursos sequer existem.

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