O ministro da Fazenda, Pedro Malan, disse ontem que os novos desdobramentos da crise asiática mostram que o problema é muito mais amplo e profundo do que inicialmente pareceu e que ele não pode ser confundido como mero resultante do fim de um ciclo de crescimento ou de uma crise cambial nos moldes tradicionais. ‘‘A crise deles estará conosco por mais algum tempo’’, afirmou, durante almoço com jornalistas. Mesmo assim, Malan não acredita que o Brasil possa sofrer um ataque especulativo na esteira das novas dificuldades enfrentadas pelas economias da Ásia. ‘‘O risco hoje de um novo ataque especulativo contra o real é bem menor do que no passado’’, disse.
O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Pedro Parente, que também participou do encontro, disse que o governo poderá adotar medidas adicionais para ajustar a economia se o desdobramento da crise internacional assim o exigir. ‘‘O governo continuará a propor medidas de ajuste, se elas forem necessárias’’, disse Parente. Malan ouviu e concordou com a cabeça. Parente não explicou que medidas poderiam ser essas. ‘‘O importante é que fique claro a disposição do Brasil de resolver os seus próprios problemas’’, explicou.
Durante o almoço, Malan afirmou, por duas vezes, que ‘‘vivemos hoje num mundo mais perigoso do que há meses’’. O ministro se referia não apenas às imensas dificuldades que o mercado internacional terá para absorver os problemas asiáticos, mas também à simultaneidade dos acontecimentos financeiros, no mundo globalizado. ‘‘Somos prisioneiros das decisões que os investidores tomam ao tentar se antecipar ao que vai acontecer no futuro’’.
O ministro da Fazenda chamou a atenção para o fato de que até mesmo um ataque especulativo ficou mais barato e mais fácil para o investidor temerário, por causa do desenvolvimento tecnológico. A certeza de Malan de que o Brasil corre menos risco de um ataque especulativo está baseada, principalmente, em dois fatores: a rapidez da resposta do Brasil aos desafios colocados pela crise em outubro passado e a percepção dos investidores de que os problemas vividos pelas economias da Ásia são específicos e distintos daqueles apresentados pelos países da América Latina e, particularmente, o Brasil.
Na sua opinião, essa distinção está se tornando cada vez mais clara para os investidores, com o passar do tempo. A rapidez da resposta brasileira, de acordo com Malan, pode ser observada pelo mercado com a decisão do Banco Central de elevar as taxas de juros, com a presteza do governo ao apresentar um conjunto de medidas destinadas a reduzir o déficit público, com a decisão do Congresso brasileiro de dividir responsabilidades com o Executivo na adoção das medidas, algumas impopulares, na direção do ajuste fiscal e na convocação extraordinária do Congresso para a aprovação das reformas.
Durante o almoço, o ministro da Fazenda citou pelo menos dez vezes o nome do economista norte-americado Paul Krugmann e sua análise sobre os problemas dos países asiáticos. No artigo ‘‘O que aconteceu com a Ásia’’, publicado recentemente, Krugmann diz que a crise daqueles países não pode ser qualificada como uma crise cambial nos moldes tradicionais. Ao contrário, afirma que as fortes desvalorizações das moedas daqueles países foram uma consequência da crise e não sua causa.
Krugman argumenta que a origem da crise está relacionada com uma inflação de preços dos ativos, que agora está sendo corrigida. E que essa inflação de preços dos ativos decorreu de um superinvestimento financiado com crédito externo farto e barato, por meio de um sistema financeiro mal regulamentado, mal fiscalizado e sem independência em relação ao setor público.
Malan mostrou ontem que sua análise da crise é semelhante à de Krugmann. ‘‘A correção dos preços dos ativos pode se dar de duas maneiras: pela queda das cotações das ações em Bolsas ou pela desvalorização das moedas’’, disse. ‘‘Lá, estão ocorrendo as duas coisas’’.

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