Real corre menos riscos, garante Malan
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terça-feira, 13 de janeiro de 1998
Agência Estado Brasília 
O ministro da Fazenda, Pedro Malan, disse ontem que os novos desdobramentos da crise asiática mostram que o problema é muito mais amplo e profundo do que inicialmente pareceu e que ele não pode ser confundido como mero resultante do fim de um ciclo de crescimento ou de uma crise cambial nos moldes tradicionais. A crise deles estará conosco por mais algum tempo, afirmou, durante almoço com jornalistas. Mesmo assim, Malan não acredita que o Brasil possa sofrer um ataque especulativo na esteira das novas dificuldades enfrentadas pelas economias da Ásia. O risco hoje de um novo ataque especulativo contra o real é bem menor do que no passado, disse.
O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Pedro Parente, que também participou do encontro, disse que o governo poderá adotar medidas adicionais para ajustar a economia se o desdobramento da crise internacional assim o exigir. O governo continuará a propor medidas de ajuste, se elas forem necessárias, disse Parente. Malan ouviu e concordou com a cabeça. Parente não explicou que medidas poderiam ser essas. O importante é que fique claro a disposição do Brasil de resolver os seus próprios problemas, explicou.
Durante o almoço, Malan afirmou, por duas vezes, que vivemos hoje num mundo mais perigoso do que há meses. O ministro se referia não apenas às imensas dificuldades que o mercado internacional terá para absorver os problemas asiáticos, mas também à simultaneidade dos acontecimentos financeiros, no mundo globalizado. Somos prisioneiros das decisões que os investidores tomam ao tentar se antecipar ao que vai acontecer no futuro.
O ministro da Fazenda chamou a atenção para o fato de que até mesmo um ataque especulativo ficou mais barato e mais fácil para o investidor temerário, por causa do desenvolvimento tecnológico. A certeza de Malan de que o Brasil corre menos risco de um ataque especulativo está baseada, principalmente, em dois fatores: a rapidez da resposta do Brasil aos desafios colocados pela crise em outubro passado e a percepção dos investidores de que os problemas vividos pelas economias da Ásia são específicos e distintos daqueles apresentados pelos países da América Latina e, particularmente, o Brasil.
Na sua opinião, essa distinção está se tornando cada vez mais clara para os investidores, com o passar do tempo. A rapidez da resposta brasileira, de acordo com Malan, pode ser observada pelo mercado com a decisão do Banco Central de elevar as taxas de juros, com a presteza do governo ao apresentar um conjunto de medidas destinadas a reduzir o déficit público, com a decisão do Congresso brasileiro de dividir responsabilidades com o Executivo na adoção das medidas, algumas impopulares, na direção do ajuste fiscal e na convocação extraordinária do Congresso para a aprovação das reformas.
Durante o almoço, o ministro da Fazenda citou pelo menos dez vezes o nome do economista norte-americado Paul Krugmann e sua análise sobre os problemas dos países asiáticos. No artigo O que aconteceu com a Ásia, publicado recentemente, Krugmann diz que a crise daqueles países não pode ser qualificada como uma crise cambial nos moldes tradicionais. Ao contrário, afirma que as fortes desvalorizações das moedas daqueles países foram uma consequência da crise e não sua causa.
Krugman argumenta que a origem da crise está relacionada com uma inflação de preços dos ativos, que agora está sendo corrigida. E que essa inflação de preços dos ativos decorreu de um superinvestimento financiado com crédito externo farto e barato, por meio de um sistema financeiro mal regulamentado, mal fiscalizado e sem independência em relação ao setor público.
Malan mostrou ontem que sua análise da crise é semelhante à de Krugmann. A correção dos preços dos ativos pode se dar de duas maneiras: pela queda das cotações das ações em Bolsas ou pela desvalorização das moedas, disse. Lá, estão ocorrendo as duas coisas.


