Real aposta no sucesso do País
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de julho de 1998
Miguel Ignatios 
O balanço dos quatro anos do Plano Real é amplamente favorável ao governo. Nem tanto pelo sucesso da estabilização dos preços e da inflação, mas, sobretudo, pela necessidade, aceita pela sociedade, de um mínimo de racionalidade e planejamento econômico em todos os níveis de atuação. Antes do Plano Real houve outros programas com os quais nossos planejadores aprenderam bastante, principalmente com o Plano Cruzado, considerado avô do Real.
Ambos os planos tiveram a ousadia de mostrar aos brasileiros que, apesar de todos os nossos problemas, o País era viável e poderia dar certo. O Plano Cruzado foi um sonho de curta duração, pouco mais de três meses; por sua vez, o Plano Real é uma realidade que já dura quatro anos.
Quando o Real foi anunciado, em julho de 1994, a oposição, desconfiada com os insucessos dos planos anteriores, preferiu apostar no imobilismo. Apressou-se em tachar o programa de estabilização de demagógico e de eleiçoeiro. Errou feio. E deu no que deu. FHC foi eleito com bastante tranquilidade por ter tido a coragem de acreditar que o Brasil poderia começar a dar certo.
Quando resolveu elaborar as diretrizes do Plano Real, FHC estava apostando alto: o objetivo implícito era retomar a política desenvolvementista e a euforia, características do governo de Juscelino Kubitschek, 34 anos depois, que tanto marcou positivamente nosso País.
Obviamente, a oposição percebeu a ousadia de FHC, mas conservadora como de costume preferiu jogar todas as suas fichas numa atitude cultural, infelizmente, muito em voga no Brasil e em toda a América Latina: cultuar o herói perdedor. O medo do sucesso é tão grande e arraigado entre nós, latino-americanos, que, quando qualquer personalidade da política, dos negócios, das artes, dos esportes, da ciência e tecnologia começa a se destacar, logo surgem multidões de críticos que preferem atribuir seu sucesso a casamentos bem sucedidos, a apadrinhamentos, e coisas piores, do que à sua competência.
A verdade é que temos pavor do sucesso! Infelizmente!
De todos os balanços feitos até agora pelo aniversário do Real faltou o que talvez seja o mais importante: o programa de estabilização de FHC reconciliou a sociedade brasileira, dividida pelos 20 anos de regime militar. Foi uma volta aos anos dourados só que núm cenário político, social, econômico e cultural totalmente diverso e já com o desafio da globalização a ser vencido.
O brasileiro hoje recuperou a esperança de dias melhores. Temos problemas? Sim. Eles são muitos e de soluções difíceis. Até porque alguns decorrem de uma conjuntura mundial (crise na Ásia) desfavorável aos países latino-americanos. Dentre eles, nunca é demais citar o desemprego nas grandes metrópoles, o esmagamento do setor produtivo e competitivo da economia com impostos e uma burocracia que ao invés de diminuir só aumenta; o elevadíssimo custo do dinheiro para as micro e pequenas empresas (acima de 60% ao ano); a persistência do risco de ocorrência dos déficits gêmeos (na balança comercial e nas transações correntes); e as ausências de uma política industrial de longo prazo compatível com a globalização e de programas sociais emergenciais para fazer frente a ela.
Mas todos esses problemas podem ser resolvidos. E nós, empresários, bem como toda a sociedade brasileira, esperamos que eles começem desde já a ser reconhecidos pelo governo. Quanto mais cedo isso for feito, melhor. Daqui a quatro anos, talvez já possamos fazer um balanço do Real bem mais otimista do que o atual.
MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)


