Brasília – O governo enfrentará um desafio para trazer a inflação de volta ao centro da meta em 2012. Se os preços subirem nos próximos meses conforme o previsto pelos analistas financeiros, o salário mínimo será reajustado em 14% no ano que vem. Por um lado, o aumento injetará mais renda na economia e estimulará o crescimento. Por outro, o mínimo agravará o desequilíbrio fiscal e elevará a pressão sobre o custo e os preços.

O reajuste do salário mínimo é consequência da fórmula aprovada pelo Congresso Nacional e que valerá até 2014. Pela regra, o mínimo será corrigido no início de cada ano pela inflação do ano anterior e pela variação do Produto Interno Bruto (PIB) dos dois anos anteriores. Dessa forma, o aumento em 2012 será de 7,5% (crescimento do PIB em 2010) mais a inflação oficial pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) de 2011.

O mercado não tem estimativas sobre o INPC, mas trabalha com projeções para a inflação oficial pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que tem base de dados semelhante ao INPC. De acordo com o Boletim Focus, pesquisa com instituições financeiras divulgadas toda semana pelo Banco Central, o IPCA deve fechar 2011 em 6,26%. Se forem somados o crescimento e as estimativas de inflação, a correção ficaria em pelo menos 13,76%.

"A política de reajuste resultou no pior dos cenários possíveis para o governo, que é de inflação alta combinada com o crescimento extraordinário de 2010", ressalta o economista-chefe da consultoria Austin Rating, Alex Agostini. Para ele, o reajuste recorde do mínimo acentua a preocupação com o controle da inflação porque injetará um volume considerável de dinheiro na economia num momento em que o consumo e a produção precisam ser desaquecidos.

De acordo com relatório da consultoria LCA, divulgado no início da semana, o aumento do mínimo no ano que vem acrescentará R$ 9 bilhões na economia brasileira. Segundo Agostini, a circulação desse montante poderá até anular os esforços do governo para conter a inflação e agravar a alta no preço dos alimentos. "O mínimo maior vai impulsionar o consumo das classes de baixa renda, que consomem mais itens como alimentos e bens não duráveis. Quando aumenta a demanda, a tendência é que o preço também suba", explica.

O economista-chefe do banco West LB, Roberto Padovani, ressalta o desequilíbrio fiscal como efeito colateral do reajuste. Isso porque o salário mínimo corrige os benefícios dos aposentados e pensionistas que recebem o piso. Para cada R$ 1 de aumento, a despesa extra é de R$ 184 milhões por ano segundo a própria equipe econômica.

Para os dois especialistas, o governo terá de aumentar o rigor nos gastos públicos e apertar a política monetária (aumentando juros e restringindo o crédito) para impedir que a inflação fuja do controle no próximo ano.

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