Marcos BorgesVisão estreitaGaudêncio: ‘‘Maior pecado da empresa é usar o critério de utilidade do profissional como única ferramenta’’O fim de todo e qualquer processo de gerenciamento, ou de sobrevivência das empresas em linguagem atual, será a participação dos funcionários nos lucros e resultados. A afirmação é do consultor de empresas Paulo Gaudêncio, que esteve ontem em Londrina para uma palestra na Associação Médica, a convite da Folha.
Psiquiatra há quase 40 anos e consultor de empresas nos últimos seis, Gaudêncio diz que o índice de empresas que passou a dividir os lucros com os empregados em São Paulo já passa de 50% e que até a virada do século o quadro se completa. ‘‘As empresas estão descobrindo agora que é bem melhor ganhar 30% de cem do que 80% de dez’’, observa, já ironizando: ‘‘É complicado fazer filho na mulher dos outros o tempo todo’’.
Gaudêncio explica que as mudanças de cinco anos atrás (a primeira foi a abertura de mercado) exigiram das empresas um enorme esforço de modernização. Por mais que elas façam, ele afirma, apenas 40% de todas as iniciativas estão dando certo. Significa que nem a Qualidade Total nem a Reengenharia - para citar apenas dois novos modelos de gerenciamento - dão conta do problema empresarial. ‘‘O que falta é o envolvimento das pessoas’’, analisa.
Foi justamente este o tema da palestra de ontem: Autoconhecimento e Qualidade. Gaudêncio fala que existem ‘‘coisas’’ e ‘‘pessoas’’ no mundo empresarial. ‘‘O preço, atrelado às coisas, e cada uma das pessoas com a sua dignidade, úteis ou não para a empresa. ‘‘Até aí, tudo bem’’ - diz o consultor. ‘‘O grau de utilidade das pessoas deve ser, sim, avaliado, mas há um algo a mais’’. O maior pecado da empresa, segundo ele, é usar o critério de utilidade como única ferramenta, e o das pessoas, é deixar a carreira profissional nas mãos da empresa.
Gaudêncio, que vê boas mudanças nos dois lados, afirma que o Brasil tem pela frente dez anos de boa margem de emprego - ‘‘depois vamos chegar à situação dos grandes países, que hoje lutam contra as horas extras e promovem um turno de trabalho a cada quatro dias úteis, por exemplo’’. A tal flexibilidade.
O índice nacional de desemprego está em cerca de 5%, enquanto nos países desenvolvidos são de 15% e até 24%, caso da Espanha. ‘‘Para quem está empregado, portanto, resgatar a dignidade é a única saída possível. As empresas estão começando a entender que o diferencial é o ser humano, e não o processo’’.

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