Rio de Janeiro - A aposentada Lúcia Mara de Noronha Santos Gonçalves, de 58 anos, batalhou muito para conseguir um empréstimo de R$ 6.300. Ex-funcionária da Caixa Econômica Federal, ela recebia do INSS com complemento do fundo de pensão da Caixa num único contracheque. Seu pedido de empréstimo foi recusado. Ela levou três meses para desvincular as duas contas e, enfim, pegar o dinheiro (líquidos, R$ 6 mil) para pagar outro empréstimo, feito pela filha para quitar suas dívidas de condomínio. ''Minha filha pegou o empréstimo com juros altos para me ajudar. Agora eu libero a conta dela, que é médica veterinária e não pode ter rendimentos tão comprometidos.''
Para o economista Roberto Zentgraf a decisão de Lúcia foi acertada. Pedir um empréstimo para quitar um financiamento de juros mais altos é um bom negócio. Lúcia recebeu R$ 6 mil do BMG (R$ 307 ficaram para as taxas do financiamento) e vai pagar R$ 288 mensais por 36 meses Ela ganha R$ 900 do INSS e R$ 2 mil da Caixa. Já a filha pegou um de R$ 5.800 e pagaria 36 prestações de R$ 400.
Zentgraf desaconselha, porém, os empréstimos para quem está sem dívidas e deseja, por exemplo viajar com a família nas férias. ''Nesse caso, o dinheiro pode faltar mais adiante. E, se houver uma sobra mensal, a pessoa deve avaliar se esta pagará a dívida.''
Para Luis Carlos Ewald, outro risco é a perda do poder aquisitivo da população em um curto período. ''Os aposentados recebem um reajuste anual, que não acompanha o do salário mínimo, mas segue o da inflação. Daqui a dois ou três anos essa multidão de 17 milhões de endividados vai reduzir o consumo. É um risco para a economia do País.''
A pesquisadora do IBGE Lúcia Cunha, especializada em idosos, diz que 40% das famílias brasileiras são sustentadas por pessoas acima de 60 anos, sendo que 55% delas por idosos que ganham até dois salários mínimos. É justamente por conta da baixa renda dos aposentados que o presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados da Força Sindical, João Batista, teme pelo endividamento sem volta. Um exemplo é o da museóloga Lygia Santos, 70 anos. Hipertensa e diabética, ela não aguentou o calor do verão e abusou do ar-condicionado. Resultado: contas de luz de R$ 600 mensais e, agora, um empréstimo para pagá-las. No próximo verão, tudo indica que a situação pode piorar.
''Minha aposentadoria não dá para nada. Dou aulas três vezes por semana na Universidade Carioca para sobreviver. Não vou ao teatro nem a shows, não viajo, não tenho o lazer que gostaria por falta de dinheiro. E ainda tenho que morrer de calor? Essa não! Fiz o empréstimo na esperança de que o governo do Estado nos desse o reajuste que tanto prometeu!'' (A.G.)

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