Nova York - A questão cambial deve ser um dos assuntos mais urgentes a serem tratados pelo próximo governo do Brasil, avaliam analistas entrevistados pela Agência Estado nos Estados Unidos. ''Gerenciar essa crise cambial será algo colossal para o Brasil nos próximos anos'', analisou Reva Bhalla, diretora de análises da consultoria Strafor, em Washington.
''Especialmente porque não há solução fácil para esse problema. Realmente, nosso foco já não está em quem vai vencer, até porque não vejo muitas diferenças entre os dois candidatos, mas como o próximo presidente irá tratar de questões econômicas, a maior delas a apreciação do real'', explicou.
Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) disputam o segundo turno da eleição presidencial no dia 31 de outubro. De acordo com Bhalla, muito mais dólares devem entrar na economia nos próximos anos, seja por causa do pré-sal, Copa da Mundo, Olimpíada ou porque o resto do mundo vai estar patinando em crescimento pífio e o Brasil seguirá atrativo. ''Será muito importante olhar como o próximo governo irá gerenciar a força cambial. Não existe caminho fácil'', disse.
A analista afirmou que vários fatores têm contribuído para agravar a situação cambial no Brasil e uma deles é o fato de a economia ser muito voltada ainda para exportações de commodities. ''Isso só vai ser exacerbado com o pré-sal. O pré-sal deve atrair muita atenção e ao mesmo tempo dificulta os esforços do Brasil em diversificar a economia e afastar-se desse modelo de exportador de commodities'', disse Reva Bhalla.
Além do mais, segundo ela, o mundo vive hoje uma guerra cambial, liderada pela China e seu fraco yuan, que afeta a competitividade de vários países. ''Há soluções de curto prazo onde algumas intervenções conseguem conter a valorização da moeda'', disse. ''Mas daí há também o problema da inflação e nós sabemos o quanto o Brasil é sensível à inflação. E acho que os dois candidatos entendem bem os risco de inflação'', acrescentou.
Para Robert Wood, economista-sênior para América Latina da Economist Intelligence Unit (EIU), muitos investidores estão olhando para o Brasil e a possibilidade de entrada de mais dólares também eleva a chance de medidas adicionais para conter o real, como aumento do o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para capital estrangeiro. Mas a medida, segundo ele, só deve vir após as eleições. ''Muitos investidores estão tentando entrar pela porta antes que isso aconteça. Acho que o aumento só viria antes das eleições se houvesse muita pressão sobre o real'', observou.
Além da questão cambial, Wood disse que o próximo governo deverá avançar nos investimentos em infraestrutura, algo que segundo ele foi ''muito lento'' no governo atual, eliminando os gargalos logísticos que possam atrapalhar o crescimento sustentado do País.
Wood disse ainda que dentre as reformas que devem ser feitas, o próximo presidente, que segundo ele deve ser Dilma, deveria aproveitar o clima de ''lua-de-mel'' de início de governo e fazer logo a reforma tributária. De acordo com ele, com essa estratégia, Dilma teria mais chances de conseguir ver a reforma aprovada.

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