Quem pode patrocinar a cultura
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sexta-feira, 19 de março de 2010
Nelson Bortolin<br> Especial para a FOLHA 
Embora tenha sido sancionada há quase 20 anos, a Lei Rouanet, de incentivo à cultura, ainda é pouco conhecida entre os empresários da cidade. É nisso que acreditam os produtores culturais londrinenses que, nesta semana, lançaram a campanha Leãozinho Cultural (www.leaozinhocultural.com.br). Eles pretendem esclarecer quais são os empresários e as pessoas físicas que podem se tornar patrocinadores de cultura. E quais os benefícios para eles. De acordo com a Rouanet (lei 8.313/91), as empresas que apuram seu imposto de renda (IR) pelo lucro real podem destinar até 4% do valor devido a projetos culturais aprovados pelo Ministério da Cultura. E as pessoas físicas que fazem declaração pelo modelo completo têm o direito de doar até 6%.
Os valores devem ser depositados na conta corrente do projeto cultural e descontados na hora que a pessoa for fazer o pagamento do imposto. Na maioria dos casos, a lei permite a dedução completa do dinheiro revertido. ''É dinheiro que deixa de ir para os cofres do governo e fica na cidade, beneficia um projeto cultural e ainda ajuda a melhorar a imagem da empresa'', afirma o jornalista Cláudio Osti, da Mais Comunicação. Segundo ele, os empresários locais ainda não despertaram para o potencial da Lei Rouanet. ''As empresas só ganham ao apostarem num projeto cultural por meio da lei'', garante.
O administrador de empresas, André Guedes, dono da Atmosfera Eventos, concorda. ''Atualmente, a gente nem utiliza a Rouanet nos eventos que fazemos. Falta conhecimento da lei'', diz ele. Segundo Guedes, alguns empresários, ao destinarem um porcentual do imposto devido, temem revelar o faturamento da sua empresa. ''Mas é preciso ver que, incentivando a cultura, ele também vai gerar empregos. E associar sua marca a um produto cultural é sempre uma boa ideia. As maiores empresas do Brasil públicas e privadas como Petrobras e Itaú se utilizam da Lei Rouanet'', ressalta.
Um dos organizadores da reunião realizada na última terça-feira para o lançamento da campanha, o diretor do Festival de Música de Londrina (FML), Marco Antonio Almeida, afirma: ''Fiquei pasmo com o desconhecimento geral sobre a lei''. O diretor do Festival de Teatro (Filo), Luiz Bertipaglia, também acredita ser a falta de informações sobre a Rouanet a justificativa para a baixa adesão do empresariado. ''Se conhecerem os mecanismos da lei, tenho certeza que as pessoas passarão a investir mais.''
Mas, na opinião do presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil), Marcelo Cassa, não há dados que comprovem que o empresário investe pouco ou desconhece a lei. ''O que nós acreditamos é que é preciso haver uma melhora na divulgação dos ativos culturais enquanto negócio. Falta ao produtor local profissionalismo para vender seu produto. O empresário não vai fazer caridade. Vai investir naquilo que pode lhe trazer retorno.''
Já o proprietário da Interativa Projetos, Leirton Marques, acredita que falta ao empresário uma visão de cultura como mercado. ''Quando abordamos o patrocinador, temos de frisar qual a importância econômica da iniciativa, quantos empregos diretos e indiretos vai gerar. Como vai movimentar o comércio local.'' Para um trabalho de pós-graduação em Administração e Marketing da UEL, ele realizou uma pesquisa junto aos empresários que já se utilizaram da Lei Rouanet. ''A maioria não está satisfeita com a forma com que os projetos são divulgados. Os produtores têm de cuidar mais deste aspecto'', aconselha.
A Receita Federal não sabe informar precisamente quantas empresas na cidade estão em condições de investir em projetos culturais pela Lei Rouanet. Segundo o funcionário Mario Sonomura, das 80 mil empresas existentes na região, 2 mil estão no regime de lucro real. ''Mas isso não significa que elas estão realmente tendo lucro e pagando o imposto de renda'', ressalta.


