O presidente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Eugenio Stefanelo acusou alguns produtores de feijão, ‘‘mais capitalizados’’, de especular com o produto e provocar uma alta artificial nos preços. Em entrevista exclusiva à Folha , ele admite que alguns importadores estão contribuindo com o movimento especulativo para desovar o produto importado com preços elevados, mas salientou que não tem como provar.
Stefanelo alerta aos produtores que têm feijão estocado, que este é o momento ideal para vender o produto porque ainda consegue um preço melhor. ‘‘Se o produtor demorar muito, as cotações vão desabar e o produtor poderá até ter prejuízos’’, destacou. O presidente da Conab disse que está alertando antes, quando os preços estão em alta para não ser acusado depois de omitir informações.
Além disso, não quer ver depois entidades e órgãos ligado aos produtores irem à Brasília pedir ajuda ao governo. Ele observou que se as cotações cairem muito o governo vai garantir o pagamento do preço mínimo, mas lembrou que os produtores que têm estoque não podem especular com o produto, sob pena de prejudicar outros produtores.
Para Stefanelo o produtor que tem feijão estocado em sua propriedade não tem muito tempo para desovar a produção. Conforme a expectativa, a safra brasileira das águas será aproximadamente 10% maior em relação à produção do ano passado, o que representa o aumento de pelo menos 200 mil toneladas de acréscimo à produção total.
No ano passado, foram colhidas 1,1 milhão de toneladas de feijão no país. Para o presidente da Conab esse volume é bastante expressivo e suficiente para derrubar as cotações. Ele prevê essa queda para o final de outubro, quando a produção da safra das águas no Sudoeste do Paraná começa a ser colhida.‘‘A entrada gradativa da safra paranaense no mercado vai derrubar as cotações entre R$ 5,00 a R$ 10,00 a saca por dia’’, alertou.
Segundo Stefanelo, alguns fatores contribuiram para reforçar o movimento especulativo. Entre eles apontou a redução na entrada de feijão no mercado atacadista de São Paulo, com o fim da safra no Estado, a redução da colheita nos estados centrais, onde os produtores cultivam o feijão com equipamentos de pivô central.
Com a estiagem na safra passada, faltou água e comprometeu a produtividade, explicou. Também apontou o fim da colheita nos estados de Sergipe, Alagoas e Noroeste da Bahia, que fez com que o mercado nordestino voltasse a se abastecer junto a fornecedores de São Paulo. Para agravar a situação, as chuvas intermitentes poderão atrasar a entrada da safra paranaense no mercado.
Apesar disso, o presidente da Conab disse que não tem sentido os preços do produto saltarem de R$ 40,00 a saca para R$ 100,00 a saca de uma hora para outra. ‘‘Isso porque a expectativa da próxima safra é muito boa’’, justificou.
Para Stefanelo se os produtores ‘‘ fizerem o absurdo de segurar o feijão, poderão correr o risco de ficar com o mico na mão e desovar quando as cotações começarem a cair’’, insistiu.
O movimento especulativo por parte de importadores foi confirmado por uma fonte do mercado, que não quis se identificar. A alta nos preços é artificial, diz a fonte.
Em junho quando o preço da saca foi a R$ 120,00, o feijão foi importado do Chile, Estados Unidos e Argentina. Além da entrada do produto importado, que aumentou a oferta, o consumidor reduziu o consumo. Ficou comprovado que o consumidor substituiu o feijão pelo frango, quando os preços se tornaram competitivos.
Com isso, em agosto, a cotação média do produto já havia caido para R$ 54,00 a saca, frustrando as expectativas de boa rentabilidade. Daí o interesse do mercado de elevar o preço para favorecer a desova do estoque de importados, apontou a fonte.

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