Preocupação é que as exportações brasileiras sejam afetadas por possível boicote por parte dos europeus
Preocupação é que as exportações brasileiras sejam afetadas por possível boicote por parte dos europeus | Foto: Sergio Ranalli/1-8-2017

A sexta-feira (23) foi de tensão na Europa e no Brasil devido às queimadas na Amazônia. O presidente francês, Emmanuel Macron, ameaçou vetar o acordo Europa-Mercosul dizendo que o colega brasileiro Jair Bolsonaro mentiu quando se comprometeu a preservar o meio ambiente. A primeira-ministra alemã, Angela Merkel, disse que vai levar o assunto para ser discutido na reunião do G7 – grupo formado pelas sete maiores economias do mundo – neste final de semana na França. E a Finlândia ameaçou pedir boicote da carne brasileira.

Bolsonaro, por sua vez, liberou o Exército para combater os focos de incêndio. E fez pronunciamento em rede de rádio e TV à noite para explicar a posição do governo acerca do caso. Empresários e economistas procurados pela FOLHA disseram que o momento é grave, mas a maioria não culpa o governo brasileiro.

João Fernando Zogheib, da Paraná Trading, está muito preocupado com a situação. Ele trabalha com exportações e importações de alimentos industrializados, e diz que está na hora de Bolsonaro “se conscientizar de que não está sozinho no mundo e deixar de lado seu discurso medíocre”. “O presidente diz que é um cara de mercado. Então precisa ter postura de mercado. Tem que repensar os atos dele”, criticou.

Para o empresário, o próprio agronegócio está assustado com as queimadas e quer distância do discurso radical de Bolsonaro. “É hora de o governo colocar o pé no freio”, declarou.

O acordo entre Europa e Mercosul, caso saia do papel, vai abrir muitas portas para a empresa de Zogheib. “Hoje, não consigo mandar para a Europa boa parte daquilo que mando para os Estados Unidos, devido a barreiras comerciais. Se o acordo não sair, vai ser muito ruim para a gente”, afirmou.

Questionado se as ameaças dos europeus não seriam apenas retórica, ele responde que não. “Ninguém vai para o G7 de brincadeira”, disse, em referência à intenção dos europeus discutirem a Amazônia no final de semana.

Guilherme Souza Cruz, executivo de Vendas da DC Logistics Brasil, também está preocupado com a possibilidade de o acordo não se viabilizar, mas não vê culpa de Bolsonaro. Para ele, a política externa do governo está correta e a mídia exagera quanto ao fogo na Amazônia.

Cruz trabalha com frete internacional e aposta no acordo para expansão dos negócios. “Se houver sanções contra o Brasil vai ficar muito difícil”, afirma. Ele acredita que a Europa, “de esquerda”, se comporta desta forma com o Brasil porque o País está sendo governado pela direita. “Eles puxam para o lado deles.”

Tendo morado em Rondônia, disse que vem falando com amigos de lá e não estaria acontecendo nada de anormal na região. “Agosto é mês de queimadas mesmo. A mídia exagera.”

A notícia de que o governo federal liberou o Exército para combater as queimadas, para ele, foi um gesto positivo para contornar a crise com os europeus. Apesar de apoiar o governo, o executivo espera que Bolsonaro se comporte de forma “mais flexível” nas negociações. “Se a resposta for dura, vai ficar pior ainda.”

MANOBRA

Para o presidente da SRP (Sociedade Rural do Paraná), Antônio Sampaio, há um jogo de cena por parte dos europeus, que não estariam de fato preocupados com o meio ambiente. “É um mecanismo para terem vantagem comercial, para conseguirem melhores preços (nas negociações com o Mercosul). Quando é para jogar lá embaixo os preços dos produtos que compram do terceiro mundo eles não têm escrúpulos”, criticou.

Apesar de não culpar o governo, Sampaio diz que o presidente deveria ser mais contido em seus discursos. “Deve falar em cima de dados. Quando ele agride, abre espaço para os outros também serem mais agressivos”, afirmou.

Economista e analista político brasileiro radicado nos Estados Unidos há mais de 30 anos, Carlo Barbieri concorda com Sampaio. Para ele, a Europa faz uso político das queimadas. “Desde que foi firmado o acordo (no mês passado), o presidente francês já ameaçava o Brasil devido a questões ambientais.” Para ele, o presidente Bolsonaro deveria ter se antecipado ao agravamento das queimadas. “Deveria ter dito: 'a Amazônia é nossa e nós vamos preservá-la da melhor maneira possível para evitar queimadas'”.

Prova de que o posicionamento de Macron é político, segundo Barbieri, é que o presidente francês teria se calado quando houve queimadas na Sibéria (Rússia), na Bolívia e nas Ilhas Canárias. “E foram queimadas proporcionalmente mais representativas”, afirmou.

Questionado sobre o posicionamento que o presidente Donald Trump, aliado de Bolsonaro, deverá tomar quanto às queimadas no Brasil, ele respondeu: “Do ponto de vista prático, o acordo entre Europa e o Mercosul não interessa aos Estados Unidos. Acho que ele vai ficar na dele.”

Já o presidente da Ocepar (Organização das Cooperativas do Paraná), José Roberto Ricken, é o único que não está preocupado com o acordo Europa-Mercosul. “Nada aconteceu ainda. É um namoro, não houve casamento. Não adianta se preocupar antes do tempo. O mercado europeu é importante, tem uma remuneração diferenciada, mas tem de dar tempo ao tempo”, declarou.

Sobre as queimadas, Ricken diz que é preciso confirmar a extensão do problema. “É comum queimadas nesta época. Não foi o governo que pôs fogo”, disse, ressaltando que é “fácil culpar o governo que começou agora”.

Para o presidente da entidade, cabe a sociedade mostrar que o Brasil protege o meio ambiente. “Ninguém como nós deu 20% (das áreas agrícolas) para o meio ambiente. Isso precisa ser mostrado. Se prevalecer a verdade, o acordo vai sair. Mentira tem perna curta.”

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