Queimadas põem em risco acordo Europa-Mercosul
Líderes europeus criticam duramente Jair Bolsonaro pelos focos de incêndio que ocorrem na Amazônia
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de agosto de 2019
Líderes europeus criticam duramente Jair Bolsonaro pelos focos de incêndio que ocorrem na Amazônia
Nelson Bortolin - Grupo Folha 

A sexta-feira (23) foi de tensão na Europa e no Brasil devido às queimadas na Amazônia. O presidente francês, Emmanuel Macron, ameaçou vetar o acordo Europa-Mercosul dizendo que o colega brasileiro Jair Bolsonaro mentiu quando se comprometeu a preservar o meio ambiente. A primeira-ministra alemã, Angela Merkel, disse que vai levar o assunto para ser discutido na reunião do G7 – grupo formado pelas sete maiores economias do mundo – neste final de semana na França. E a Finlândia ameaçou pedir boicote da carne brasileira.
Bolsonaro, por sua vez, liberou o Exército para combater os focos de incêndio. E fez pronunciamento em rede de rádio e TV à noite para explicar a posição do governo acerca do caso. Empresários e economistas procurados pela FOLHA disseram que o momento é grave, mas a maioria não culpa o governo brasileiro.
João Fernando Zogheib, da Paraná Trading, está muito preocupado com a situação. Ele trabalha com exportações e importações de alimentos industrializados, e diz que está na hora de Bolsonaro “se conscientizar de que não está sozinho no mundo e deixar de lado seu discurso medíocre”. “O presidente diz que é um cara de mercado. Então precisa ter postura de mercado. Tem que repensar os atos dele”, criticou.
Para o empresário, o próprio agronegócio está assustado com as queimadas e quer distância do discurso radical de Bolsonaro. “É hora de o governo colocar o pé no freio”, declarou.
O acordo entre Europa e Mercosul, caso saia do papel, vai abrir muitas portas para a empresa de Zogheib. “Hoje, não consigo mandar para a Europa boa parte daquilo que mando para os Estados Unidos, devido a barreiras comerciais. Se o acordo não sair, vai ser muito ruim para a gente”, afirmou.
Questionado se as ameaças dos europeus não seriam apenas retórica, ele responde que não. “Ninguém vai para o G7 de brincadeira”, disse, em referência à intenção dos europeus discutirem a Amazônia no final de semana.
Guilherme Souza Cruz, executivo de Vendas da DC Logistics Brasil, também está preocupado com a possibilidade de o acordo não se viabilizar, mas não vê culpa de Bolsonaro. Para ele, a política externa do governo está correta e a mídia exagera quanto ao fogo na Amazônia.
Cruz trabalha com frete internacional e aposta no acordo para expansão dos negócios. “Se houver sanções contra o Brasil vai ficar muito difícil”, afirma. Ele acredita que a Europa, “de esquerda”, se comporta desta forma com o Brasil porque o País está sendo governado pela direita. “Eles puxam para o lado deles.”
Tendo morado em Rondônia, disse que vem falando com amigos de lá e não estaria acontecendo nada de anormal na região. “Agosto é mês de queimadas mesmo. A mídia exagera.”
A notícia de que o governo federal liberou o Exército para combater as queimadas, para ele, foi um gesto positivo para contornar a crise com os europeus. Apesar de apoiar o governo, o executivo espera que Bolsonaro se comporte de forma “mais flexível” nas negociações. “Se a resposta for dura, vai ficar pior ainda.”
MANOBRA
Para o presidente da SRP (Sociedade Rural do Paraná), Antônio Sampaio, há um jogo de cena por parte dos europeus, que não estariam de fato preocupados com o meio ambiente. “É um mecanismo para terem vantagem comercial, para conseguirem melhores preços (nas negociações com o Mercosul). Quando é para jogar lá embaixo os preços dos produtos que compram do terceiro mundo eles não têm escrúpulos”, criticou.
Apesar de não culpar o governo, Sampaio diz que o presidente deveria ser mais contido em seus discursos. “Deve falar em cima de dados. Quando ele agride, abre espaço para os outros também serem mais agressivos”, afirmou.
Economista e analista político brasileiro radicado nos Estados Unidos há mais de 30 anos, Carlo Barbieri concorda com Sampaio. Para ele, a Europa faz uso político das queimadas. “Desde que foi firmado o acordo (no mês passado), o presidente francês já ameaçava o Brasil devido a questões ambientais.” Para ele, o presidente Bolsonaro deveria ter se antecipado ao agravamento das queimadas. “Deveria ter dito: 'a Amazônia é nossa e nós vamos preservá-la da melhor maneira possível para evitar queimadas'”.
Prova de que o posicionamento de Macron é político, segundo Barbieri, é que o presidente francês teria se calado quando houve queimadas na Sibéria (Rússia), na Bolívia e nas Ilhas Canárias. “E foram queimadas proporcionalmente mais representativas”, afirmou.
Questionado sobre o posicionamento que o presidente Donald Trump, aliado de Bolsonaro, deverá tomar quanto às queimadas no Brasil, ele respondeu: “Do ponto de vista prático, o acordo entre Europa e o Mercosul não interessa aos Estados Unidos. Acho que ele vai ficar na dele.”
Já o presidente da Ocepar (Organização das Cooperativas do Paraná), José Roberto Ricken, é o único que não está preocupado com o acordo Europa-Mercosul. “Nada aconteceu ainda. É um namoro, não houve casamento. Não adianta se preocupar antes do tempo. O mercado europeu é importante, tem uma remuneração diferenciada, mas tem de dar tempo ao tempo”, declarou.
Sobre as queimadas, Ricken diz que é preciso confirmar a extensão do problema. “É comum queimadas nesta época. Não foi o governo que pôs fogo”, disse, ressaltando que é “fácil culpar o governo que começou agora”.
Para o presidente da entidade, cabe a sociedade mostrar que o Brasil protege o meio ambiente. “Ninguém como nós deu 20% (das áreas agrícolas) para o meio ambiente. Isso precisa ser mostrado. Se prevalecer a verdade, o acordo vai sair. Mentira tem perna curta.”


