Queima de estoque é mais sentida em produtos de baixa procura
Apesar dos cartazes de 70% e 80% OFF na liquidação de janeiro, maioria dos londrinenses entrevistados pela FOLHA não sentiu descontos
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de janeiro de 2023
Apesar dos cartazes de 70% e 80% OFF na liquidação de janeiro, maioria dos londrinenses entrevistados pela FOLHA não sentiu descontos
Jéssica Sabbadini - Especial pra a FOLHA 

A região central de Londrina permaneceu neste fim de semana com placas e cartazes com a palavra ‘promoção’ por todos os lados. Prometendo descontos de mais de 50% e condições especiais de parcelamento, a tradicional queima de estoque de janeiro levou muitos londrinenses às ruas. Entretanto, dentre os consumidores que conversaram com a reportagem, a maioria não sentiu a diferença nos preços no lugar mais importante: o bolso.
Mesmo com lojas lotadas e sacolas enfeitando as mãos dos londrinenses, o valor dos produtos não vem agradando todo mundo. Rose Bueno (48) foi até uma das lojas de sapato do Calçadão para comprar uma sandália para a filha, Lohanna.
Segundo ela, os calçados estavam na mesma faixa de preço de antes. “Não mudou nada. Mesmo com os cartazes não dá para dizer que é uma promoção”, conta. Ela ainda diz que é errado o fato de os lojistas colocarem placas de descontos e, na prática, o preço ser o mesmo de antes.

Giulia Berguio da Costa, 22, também não percebeu as promoções, relatando que os valores estão normais. “Algumas lojas aqui do centro já tem essa característica de vender produtos a R$ 10, mas em outras que eu visitei o preço estava o mesmo de antes. Pelas minhas compras, eu não vi promoção”, afirma. Mas, segundo ela, as placas de promoção acabam atraindo os clientes: “o consumidor entra para ver, percebe que os preços estão normais, mas tende a comprar alguma coisinha porque já está lá dentro mesmo”.
Acompanhado da mãe, Guilherme das Neves Pereira, 22, estava à procura de um colchão inflável de casal. Segundo ele, a família pesquisou na internet o valor do produto antes e durante a promoção. “Então viemos nas lojas físicas e a faixa de preço era a mesma, não vi diferença”, explica.
Dentre as lojas que visitou com a mãe na manhã de sábado, ele garante que para encontrar um preço bom, é preciso pesquisar. “Tem que ‘bater perna’ para ver se tem alguma coisa que realmente vale a pena”, ressalta. Ele ainda conta que estava vendo os valores de algumas bolsas, mas também não encontrou promoção. “Eles colocam em liquidação aqueles produtos que eles sabem que não vão conseguir vender ao longo do ano, porque de resto está a mesma coisa”, finaliza.
A modelo Isabella Ceribelli, 26, estava em busca de cosméticos e produtos de maquiagem com valores promocionais. “Em algumas lojas, o preço está bom, já em outras está um pouquinho mais alto. Tem produto que a gente paga de R$ 20 a R$ 30 e estava por R$ 15, mas não tinha quase nada mais. Mas, por outro lado, eu notei que alguns produtos de marcas que não são tão boas estavam com preços mais altos do que costumam ser. E não teve muita saída, porque tinham muitos ainda”, relata. Também de acordo com a jovem, as roupas estavam com preços bons: “melhor do que no final do ano”.
Presente mais em conta
Debora Moraes, 31, foi até o centro de Londrina para comprar o presente de aniversário do marido, que está viajando. Ela conta que na loja de roupas que visitou, o preço estava bom. “Na etiqueta já estava mostrando um desconto e quando eu fui para no caixa para pagar saiu ainda mais barato. Para mim compensou, consegui um preço legal”, conta.
Apesar de ter ficado feliz com o produto e o valor que pagou, ela garante que já viu algumas promoções enganosas. “Em outra oportunidade, eu já vi uma loja que colocou uma etiqueta com o valor promocional e deu para notar que em algumas peças o valor com desconto era mais alto do que o que estava antes”, conta.
Segundo ela, o lojista fala que a loja está promoção para chamar atenção das pessoas: “quando vamos comprar uma coisa que está na promoção, a gente acaba levando outras coisas com o preço normal. Eles nunca perdem”.
Lojistas apostam nas promoções
Antonio Verza Filho, 63, é proprietário de uma tradicional loja de roupas no Calçadão de Londrina. Ele conta que o comércio varejista enfrentou um ano difícil nas vendas, principalmente por conta da pandemia, de problemas políticos e até mesmo pela Copa do Mundo. “Então resolvemos entrar em janeiro já com uma limpa de estoque. Nós estamos vendendo muitos produtos com preço de custo para tentar trazer mais movimento e melhorar as vendas”, explica.

Verza Filho conta que o movimento deu uma animada em dezembro, mas o objetivo agora é vender o estoque mais antigo já pensando na próxima coleção. “Queremos vender o estoque de verão para levantar capital e poder investir na coleção de inverno. Nós fazemos antecipadamente essas compras”, pontua.
Ana Beatriz Martins, 19, é a gerente de uma loja de variedades no Calçadão que está com 10% de desconto em todos os produtos. Segundo ela, a promoção começou na primeira semana de 2023 e segue até o final de janeiro. “É claro que queremos atrair clientes, mas a gente coloca em promoção porque também sabe das dificuldades desse começo de ano, inclusive porque consumimos em outras lojas”, explica.
Quando investir é vantajoso
O economista da Acil (Associação Comercial e Industrial de Londrina), Marcos Rambalducci, explica que já é uma tradição entre os varejistas essas promoções de início de ano, quando eles já fizeram a maior parte das vendas e estabeleceram a margem de lucro. Entretanto, ele ressalta que os consumidores precisam ficar atentos a outros fatores que vão além do preço. “Não tem nada mais caro do que comprar algo barato mas que a gente não precisa. Esse é um cuidado que a gente tem que ter, fazer uma avaliação sobre a real necessidade de comprar aquele produto”, ressalta.
De acordo com ele, o consumidor que vai às compras precisa ter em mente dois aspectos: qual produto ele quer comprar e o preço nos últimos meses. “Levando esses dois aspectos em conta, o consumidor tem grandes chances de fazer uma boa compra: primeiro porque ele vai comprar somente o que precisa; e segundo que ele vai saber se o desconto está realmente sendo aplicado”, pontua.
Procon dá orientações sobre compras on-line e política de trocas
O diretor-executivo do Núcleo de Proteção e Defesa do Consumidor em Londrina (Procon-LD), Thiago Mota Romero, explica que as liquidações de início de ano também acontecem nas lojas virtuais. Ele ressalta que os consumidores precisam ficar atentos a alguns fatores para comprar com segurança aquele produto de desejo. A pesquisa de preço pode ajudar o consumidor a economizar e, para isso, ele pode usar algumas ferramentas on-line, como o Buscapé e o Zoom.
“Com isso, você fica sabendo o valor do mesmo produto em diferentes lojas e pode optar por aquela que tem o preço mais em conta”, explica
Romero também ressalta que o consumidor deve ficar em alerta para anúncios de descontos milagrosos, como de um produto que custa R$ 2 mil sendo vendido por R$ 100. “Os golpistas usam isso como um chamariz, então é essencial que o consumidor verifique se o site é confiável, conferindo todas as informações, como nome fantasia, CNPJ e endereço físico”, explica. Essas informações podem ser consultadas através do site consumidor.gov.br.
O Código de Defesa do Consumidor prevê que, em compras on-line, o consumidor pode se arrepender e pedir uma devolução ou troca gratuita do item adquirido dentro do prazo de sete dias, contando a partir do recebimento do produto. Romero ressalta que essa prática não se aplica para compras feitas em lojas físicas, ficando a cargo do consumidor combinar a possibilidade de uma troca futura com o vendedor. “Quando o item for defeituoso ou, ainda, se for um produto essencial, a troca ou devolução do dinheiro é obrigatória”.
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