Queda nos juros reduz renda de aposentados
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sábado, 01 de agosto de 2009
Leandro Modé<br>Agência Estado 
São Paulo - A queda da taxa básica de juros (Selic) para os níveis mais baixos da história do País vai mudar radicalmente o cenário para os brasileiros que já têm e os que pretendem ter um plano privado de aposentadoria, como o PGBL e o VGBL. As instituições financeiras que vendem esses produtos já começam a se adaptar à nova realidade. Mas o principal interessado, o poupador, ainda não parece ter se dado conta do que vem pela frente.
Um estudo da consultoria RiskOffice, obtido com exclusividade pela reportagem, dá uma dimensão do desafio. O trabalho toma por premissa uma contribuição mensal de R$ 500 por 30 anos e um benefício futuro durante 23 anos (tempo médio que um brasileiro vive depois de se aposentar, segundo estatísticas usadas pelos bancos). O que varia na simulação é a taxa de juros real, que já desconta a inflação.
Com uma taxa de 10% ao ano, a remuneração mensal pós-aposentadoria seria de R$ 3.575,96. Com taxa de 6%, cai para menos da metade: R$ 1.718,66. Com 4,5%, faixa em que o juro real se encontra hoje, o benefício vai para R$ 1.326,24.
''Parte dos investidores que põem dinheiro em fundos PGBL e VGBL está correndo o risco de frustração'', afirma o diretor da RiskOffice Fernando Lovisotto, responsável pelo estudo. ''Pode ocorrer aquela situação em que a pessoa guarda, guarda, guarda para comprar um carro e, no fim das contas, só tem dinheiro para um jogo de pneus.''
Quando a Selic era mais alta, o investidor não precisava fazer muito esforço para conseguir um juro real de 10% ao ano - em outubro do ano passado, por exemplo, com a Selic de 13,75%, essa taxa estava em 9,6%. Bastava colocar o dinheiro em algum fundo que comprasse títulos públicos e esperar. O fermento, no caso o juro básico elevado, faria a maior parte do serviço.
''Acabou a era da rentabilidade fácil'', diz o professor e educador do Centro de Estudos e Formação de Patrimônio Calil & Calil, Mauro Calil. Agora, segundo os especialistas, só há duas saídas para o investidor: poupar mais a cada mês ou aplicar os recursos em ativos mais arriscados, como bolsa de valores, na expectativa de que a rentabilidade compense o risco maior.
''No primeiro semestre deste ano, o Ibovespa (principal índice da bolsa brasileira) rendeu 37% e o CDI (taxa de juros do mercado financeiro, que tem como referência a Selic) avançou 5,33%'', compara o diretor executivo do Itaú-Unibanco responsável pela área de previdência, Osvaldo Nascimento.
Pela legislação, o brasileiro pode aplicar no máximo 49% do patrimônio de um fundo de previdência no mercado acionário. Mas as estatísticas mostram que o investidor não se tem mostrado disposto a enfrentar o vaivém das cotações dos papéis. Embora o balanço da previdência privada aberta (que inclui planos PGBL, VGBL e Fapi) mostre uma captação líquida (depósitos menos saques) positiva de quase R$ 8 bilhões até o fim de julho, o fluxo é praticamente todo concentrado nos produtos de renda fixa.
''A parcela de recursos aplicada em renda variável (ações) tem se mantido estável'', afirma Renato Russo, vice-presidente da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi) e presidente de Vida e Previdência da Sul América Investimentos. ''Isso leva a crer que o investidor não se sente suficientemente tranquilo para migrar para o risco.''
Para ele, o poupador está certo ao tomar as decisões com cautela. ''Não é correto fazer projeção de rentabilidade de longo prazo olhando para a taxa de curto prazo'', afirma. ''Seria prematuro orientar o investidor a mudar agressivamente de produto com base no cenário de curto prazo.''
No mercado financeiro, os analistas estão divididos quanto à tendência de médio e longo prazo para a Selic. Parte acredita que o juro mais baixo veio para ficar. Outros especialistas avaliam que o Banco Central (BC) terá de elevar a taxa básica em algum momento do ano que vem, em resposta à provável recuperação da atividade econômica. De qualquer forma, mesmo os que apostam no segundo cenário não projetam um aumento expressivo da Selic.
Independentemente de qual cenário vai se concretizar, o fato é que o investidor deve ficar atento às mudanças. ''A mensagem para o cliente é: tome mais cuidado com as projeções'', recomenda o diretor de Previdência do Santander, Edson Franco, referindo-se às simulações que as pessoas fazem antes de contratar um plano.


