Queda nas bolsas aumenta enfartes
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terça-feira, 07 de outubro de 2008
Clarissa Thomé<br> Agência Estado 
Rio de Janeiro - As oscilações da Bolsa de Valores têm reflexo não apenas nos balanços das empresas e na carteira de acionistas, mas também nos consultórios médicos. Estudo do cardiologista João Mansur Filho, chefe do setor de cardiologia do Hospital Samaritano, em Botafogo, mostra que a queda das ações coincide com aumento da mortalidade por enfarte.
Para chegar a essa conclusão, o médico analisou os óbitos ocorridos entre 2001 e 2002 e comparou com o índice da Bovespa - em período de queda, a incidência de óbitos chegou a 12,06 ao dia, saldo 36,4% maior do que o registrado em época de calmaria, quando ficou em 8,8 casos diários.
Quando Mansur Filho levou em consideração apenas a população com nível superior - com maior probabilidade de movimentar investimentos em ações -, a taxa de óbito ficou 46,7% mais alta em tempos conturbados. Isso corresponde à ocorrência de 1,8 morte por dia de desvalorização, ante 1,2 por dia de bolsa em alta. A pesquisa foi apresentada no último Congresso Brasileiro de Cardiologia. Mansur Filho decidiu estudar os óbitos de 2001 e 2002 porque naqueles anos ocorreram importantes oscilações na Bovespa - a bolha da internet e o 11 de setembro em 2001 e, no ano seguinte, as incertezas provocadas pela eleição do presidente Lula.
Ele analisou a taxa de óbito por enfarte quando a média móvel do Ibovespa num período de 55 dias caiu mais de 20%. Isso ocorreu entre 12 de março de 2001 e 5 de novembro de 2001 (queda de 33,3%) e entre 2 de maio de 2002 e 23 de outubro de 2002 (-28,6%).
''Pesquisas mostram que após a queda das torres gêmeas houve aumento de casos de taquicardia ventricular em Nova York. Depois de terremotos no Japão, houve aumento de enfarte agudo. Mostramos que a crise econômica grave também provoca aumento do enfarte agudo'', disse Mansur Filho, que compara a crise a uma virose, ''que contamina toda a população''. ''Mesmo quem não tem investimento na bolsa sofre com o cenário de incerteza e pessimismo, teme o desemprego, teme não honrar compromissos.''
Mansur recomenda que as pessoas mantenham suas atividades físicas rotineiras ou iniciem os exercícios, como forma de combater o estresse. ''O que vemos é que nesses momentos de crise as pessoas ficam tão abaladas que abandonam suas atividades. E há ainda aumento do consumo de cigarro e bebida alcoólica'', afirma.
O diretor-médico do Med Rio Check-up, Gilberto Ururahy, confirma que nas últimas semanas houve ''aumento substancial da demanda por check-ups''. ''Não tenho dúvida alguma de que essa procura é decorrente do cenário econômico mundial'', afirmou. Ururahy explicou que, em momento de estresse, o organismo aumenta a produção de adrenalina, que atinge o sistema cardiovascular, provocando taquicardia, por exemplo, e do hormônio cortisol, que deprime o sistema imunológico, aumenta espessura do sangue (dificultando a circulação) e leva à depressão.


