São Paulo - Com o resultado da produção industrial no terceiro trimestre mais fraco que o esperado, divulgado na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), investidores e analistas voltaram a discutir a possibilidade de o Banco Central (BC) acelerar a velocidade da redução dos juros. No pregão da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), as projeções para as taxas de juros caíram após os dados.
Mas economistas relutam em afirmar se o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) irá ou não derrubar os juros de forma mais consistente nas duas reuniões que ainda realizará neste ano. ''Uma questão importante a ser avaliada é se a desaceleração da indústria foi pontual ou não'', afirma Hugo Penteado, economista-chefe do ABN Amro Asset Management. Analistas ressaltam também que a autoridade monetária é caracteristicamente conservadora e que está muito mais preocupada com a evolução dos índices de inflação do que com qualquer outro tema econômico.
Há uma semana, havia um consenso no mercado financeiro: a taxa básica da economia (Selic), que está em 19% anuais, sofreria mais dois cortes de 0,50 ponto percentual e chegaria ao fim de 2005 a 18%. Agora, mesmo que as instituições financeiras ainda relutem um pouco em alterar suas previsões, o contrato DI - que espelha as projeções futuras para as taxas de juros - encerrou o pregão de sexta-feira mostrando que há gente apostando na possibilidade de a taxa básica ser cortada em 0,75 ponto na reunião do Copom de dezembro.
O DI que vence na virada do ano fechou na última segunda-feira - antes de ser conhecido o dado referente à indústria- em 18,48%. Na sexta-feira, encerrou a 18,33% anuais. O IBGE divulgou que a produção da indústria fechou o terceiro trimestre deste ano com queda de 0,7% -o pior resultado desde o verificado no segundo trimestre de 2003 (-0,9%). ''Em algum momento a elevação das taxas de juros tinha de bater na produção industrial. Os juros reais são muito elevados'', afirma Alex Agostini, economista da Austin Rating.
Os juros reais brasileiros - considerando a taxa básica e descontando a inflação -, que giram em torno dos 14%, são os maiores do mundo. Quando as taxas reais de juros aumentam muito, a tendência é consumo e produção perderem ritmo.
Mas a divulgação do IPCA de outubro, na quinta, foi uma ducha de água fria nos que ficaram mais otimistas com a possibilidade de os juros caírem mais rapidamente. É que no mês passado o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou acima do esperado, ao bater nos 0,75%. E esse é o índice que o BC utiliza para monitorar sua meta de inflação. Toda vez que a meta de inflação é ameaçada, crescem as chances de o Copom elevar (ou reduzir mais amenamente) os juros.
Hugo Penteado, do ABN Asset, que prevê que o IPCA fique em 5,2% em 2005, diz esperar que a Selic esteja em 18% no fim do ano. O economista afirma que o BC ''não olha os dados pontuais'' e que está muito mais preocupado com a evolução futura da inflação. Um dos pontos favoráveis à inflação, levantados por ele, é a apreciação do real. No ano, o dólar registra desvalorização acumulada de 18,50% diante da moeda brasileira.

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