Queda dos juros ao consumidor será menor
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de novembro de 2003
Sheila D'Amorim<br> Agência Estado 
Brasília - A expectativa de que o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) colocará o pé no freio e diminuirá a velocidade de queda da taxa básica de juros (Selic) nos próximos meses se refletirá diretamente nos juros cobrados ao consumidor. Na avaliação do BC, o ritmo de redução das taxas cobradas pelos bancos e do spread bancário - que corresponde à diferença entre o custo de captação e o valor cobrado dos clientes - deverá desacelerar.
''A tendência é de redução no ritmo de queda. Os movimentos na taxa de captação não deverão ter o mesmo impacto que vimos em algumas modalidades de crédito nos últimos meses'', afirmou o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes. Com isso, será necessário esforço dobrado do governo para que a esperada expansão no crédito ao longo de 2004 se dê com um custos menores para a população.
Lopes cita como exemplo a taxa de juros do cheque especial, que entre junho e outubro caiu 29,4 pontos porcentuais, chegando a 147,4% ao ano, o menor valor desde junho de 2001. ''Não é de se esperar quedas dessas magnitudes daqui para frente'', disse Lopes. Apesar de significativo, esse valor não é motivo de comemoração, já que o nível equivale ao de mais de dois anos atrás, quando o Banco Central iniciou o projeto para redução do custo dos empréstimos. No caso do crédito direto ao consumidor, a queda foi de 13,3 pontos, alcançando o custo de 83,3% ao ano no mês passado, o menor desde junho de 2002.
Essas variações, no entanto, não representam um comportamento geral. Na prática, os dados divulgados ontem pelo BC mostram que, na maioria das modalidades de crédito, a queda verificada na taxa de juros se deu por conta apenas dos cortes na Selic. Enquanto a taxa Selic caiu 9 pontos porcentuais, entre julho e outubro, a taxa de aplicação geral dos bancos recuou 8,1 pontos porcentuais.
Especificamente nas operações com pessoas físicas para compra de veículos - que, além da redução da Selic, contaram com diminuição do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) durante um período -, a queda foi de 7,8 pontos porcentuais, alcançando 37,3% ao ano, em outubro. Já nos financiamentos para aquisição de outros bens, a redução foi de apenas 5,8 pontos, totalizando 69,9% ao ano no mês passado.
''O que se observa é que a queda verificada foi só repasse da redução da taxa básica, do custo de captação'', admitiu Lopes. Segundo ele, a redução das margens de lucro dos bancos - que embutem os custos operacionais - foi pequena. Atualmente, essa margem corresponde a cerca de 40% do spread bancário. Como os bancos resistem para diminuir esse ganho e os demais componentes do spread permanecem constantes, os juros ao consumidor só caem quando o BC anuncia reduções na Selic, apesar de haver muito espaço para corte.
''A composição do spread não mudou. A inadimplência está estável desde o ano passado, os impostos (diretos e indiretos) e a margem dos bancos não foram alterados. Não há nenhum indicador de redução dos componentes do spread'', disse Lopes.
Segundo ele, o governo continua empenhado no projeto de redução do spread bancário. Um ponto importante que poderá mudar essa realidade, afirma, é a aprovação da Lei de Falências e da reforma tributária pelo Congresso Nacional.


