Queda do real pressiona inflação
A desvalorização do real de 17,37% na semana passada deve ter reflexos diretos e indiretos nos preços e, em consequência, nos índices de inflação. A expectativa é que possa haver repasse mais rápido do aumento dos custos de importação e de produção de artigos nacionais que usam matéria-prima ou componentes estrangeiros.
Mas nem mesmo os produtos 100% nacionais tendem a ficar livres de futuros reajustes de preços. O aumento vai depender do setor, do índice de nacionalização da produção interna, da demanda doméstica e externa pelo produto e, ainda, da concorrência de mercado, avalia Juarez Rizzieri, presidente da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo (Fipe-USP). Ele prevê que o impacto da desvalorização do real nos preços desses produtos poderá ter proporções diferentes. Além disso, não se sabe qual será o comportamento do dólar a partir de hoje. Dependendo da política cambial que vier a ser adotada, as projeções de inflação feitas semana passada poderão ser alteradas.
Considerando a desvalorização acumulada pelo real até sexta-feira, a Fipe-USP projetou inflação de 7% para este ano. Rizzieri diz, no entanto, que, se houver queda de juro, o setor produtivo terá espaço para reduzir margens de lucro e diluir o aumento de gastos com importação ou produção. Além disso, segundo Ilmar Ferreira, técnico do Dieese, o consumo retraído no País, por conta da recessão econômica, tende a segurar os preços.
Para a economista Gina Baccelli, da Lloyds Asset Management, é possível trabalhar com uma expectativa de inflação entre 8% e 10% este ano. Ela acredita que a inflação poderá ser menor se não houver aumento no preço do combustível. Gina avalia que eventual reajuste de preço dos importados também poderá ser compensado parcialmente pela queda de preços em outros setores, como o de serviços, que têm peso maior nos índices de inflação e estão em declínio desde o ano passado.
Setores da economia que têm boa parte da produção voltada para a exportação, como o agropecuário, devem ser favorecidos pela desvalorização do real, avalia Ana Elisa Cardoso, economista do banco BMC. É que o preço do produto nacional ficou mais competitivo lá fora.
Em contrapartida, setores que dependem de importação de matéria-prima tendem a repassar o aumento de custo de produção para os preços, em curto prazo. É o caso das panificadoras, que já anunciaram que vão aumentar o preço do pão, cuja produção depende de farinha de trigo importada. Também incluem-se aí produtos farmacêuticos e químicos, eletroeletrônicos e passagens internacionais. As tarifas de vôos nacionais também podem ser afetadas com reajuste, afirma Carlos Coradi, da EF&C consultoria.





