Queda do real já chega próxima do limite
Denise Neumann
Agência Estado
A taxa de câmbio está próxima do ponto ideal. Apesar da população torcer para que o dólar continue a perder valor em relação ao real - para baratear o preço das viagens ao exterior e comprar importados mais baratos - economistas observam que a queda do dólar está próxima do limite e deve manter-se, nas próximas semanas, oscilando entre R$ 1,60 e R$ 1,70 por US$ 1,0.
Esse movimento, se mantido, vai representar uma desvalorização real de 25% no ano de 1999. O dólar estável em torno de R$ 1,65 representa uma desvalorização nominal de 37%. Descontando deste porcentual a inflação do ano - 10% nos índices ao consumidor - tem-se a correção real de 25%. Esse será um resultado excelente, observa José Júlio Senna, sócio-diretor da MCM Consultores Associados, que trabalha com estes cálculos.
A necessidade de manter uma desvalorização entre 20% e 25% está relacionada às exportações (que precisam deste estímulo para crescer e ajudar a trazer dólares para o País) e ao estímulo para investimentos externos, pois as empresas estrangeiras teriam maior clareza do valor dos ativos locais e do seu potencial de investimento no País. Níveis inferiores a este tenderiam a desestimular a ampliação das vendas externas brasileiras, observam os economistas.
A trajetória abrupta de queda do dólar surpreendeu o mercado financeiro. Em 45 dias, a taxa caiu de R$ 2,14 (valor de fechamento do dia 1.º de março passado) para R$ 1,66 na última quinta-feira, indicando uma recuperação de valor da moeda nacional de 30%. É fundamental que tenha ocorrido essa valorização do real depois do overshooting inicial, observa o economista Roberto Padovani, sócio da Tendências Consultoria Integrada. Esse movimento representa o sucesso da política de curto prazo adotada pelo Banco Central, acrescenta.
A mesma visão é partilhada por Senna. Essa melhora do câmbio tem a ver com a habilidade do Banco Central na administração dos instrumentos de que ele dispõe, observa. Ele relaciona, como ações do BC, a redução dos prazos de financiamento das importações, a redução do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) incidente sobre entrada de recursos externos, mudança nas regras dos fundos de renda fixa para capital estrangeiro, elevação dos juros (no início de março, quando a taxa de câmbio estava elevada) e de compulsórios, entre outras medidas.
Outra razão fundamental para a queda da taxa cambial foi o comportamento da inflação, que ficou abaixo do que estava sendo esperado pelos economistas e levou à revisão das previsões para a alta do custo de vida no ano. As estimativas anteriores - de 12% a 15% foram reduzidas para índices entre 10% a 12%, considerando preços ao consumidor.
O processo de apreciação, embora benéfico, não pode continuar indefinidamente, observa o economista-chefe do Banco Bilbao Viscaya, Octávio de Barros. Este comportamento não ajuda às exportações, diz ele. Barros considera ideal preservar uma desvalorização real de 25%. Isso implica uma taxa média de câmbio de R$ 1,73 ao longo deste ano (resultado de uma variação entre R$ 1,65 e R$ 1,75 entre abril e o fim do ano), que representa uma desvalorização nominal de 44,8%. Descontando uma inflação de 16% pelo Índice Geral de Preços (IGP), o câmbio encerraria o ano com uma correção real de 25%. Conservar esse resultado ajudaria a dar um salto de qualidade nas exportações brasileiras, pondera.





