Queda do IPI é vista com desconfiança
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domingo, 02 de agosto de 1998
Liliana Pinheiro Agência Estado 
ArquivoDepende do consumidor O esperado crescimento do emprego e da produção no segundo semestre pode até acontecer mas, dessa vez, dificilmente será impulsionado pelo setor metal-mecânico, que sempre foi termômetro de prosperidade ou de crise na economia. O diagnóstico é de vários sindicatos de metalúrgicos, que estão vendo na paradeira do mercado em julho um cenário de crise resistente, no curto prazo, a qualquer medida.
Segundo os sindicatos, a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para veículos demorará a fazer efeito e atingirá apenas uma das muitas cadeias produtivas do setor. O IPI sobre eletromésticos continuará alto, e a estabilização do desemprego e da inadimplência em níveis recordes continuarão afastando o consumidor do crediário.
Sexta-feira, a equipe econômica anunciou redução de cinco pontos percentuais do IPI para veículos. Agora é tarde, afirma o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, que há mais de seis meses havia pedido a redução para o presidente Fernando Henrique Cardoso, durante audiência em Brasília, justamente pensando em uma lenta recuperação, que desse maiores frutos no segundo semestre. Esse tipo de medida tem um tempo de maturação e deveria ter sido tomada muito antes, para evitar demissões, especialmente nas pequenas e médias empresas, diz.
A redução do IPI foi concedida em troca da manutenção do nível de emprego nas montadoras, que independentemente dessa exigência têm em geral mais fôlego para manter empregados. Mas nada fala da estabilidade nas empresas fornecedoras, que empregam o dobro de trabalhadores - são cerca de 100 mil nas indústrias de veículos e mais de 200 mil nas fabricantes de autopeças.
A Volkswagen, por exemplo, já tinha acordo com sindicatos de manter o nível de emprego até janeiro de 1999. Em troca, ganhou a concordância deles para adotar jornada flexível e banco de horas, instrumentos que também mantém o quadro de funcionários um pouco mais protegido da demissão. Já no segmento de autopeças, não há nada de novo no relacionamento entre capital e trabalho. Somente as velhas leis de mercado regulam o nível de emprego.
Retração A indústria metalúrgica no Brasil desempregou em um ano 9,5% de sua mão-de-obra na Grande São Paulo. Apenas de maio para junho, eliminou 1,4% dos postos de trabalho, quando tradicionalmente este seria um período de produção em crescimento. Os dados são da pesquisa de emprego do convênio Seade-Dieese.
Iniciativas isoladas dificilmente vão provocar mudanças nesse quadro, afirma o economista do Dieese, Paulo Roberto Arantes do Valle, que junto com outros técnicos elaborou um diagnóstico do setor metal-mecânico para a Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT. Além das oscilações do mercado e da política econômica, como as que ocorreram em decorrência da crise asiática, há os fatores estruturais, como a automação, a globalização do mercado, a abertura rápida demais para importações.
O resultado, segundo ele, só poderia ser alterado com uma política industrial negociada. Nos países desenvolvidos, a adaptação da indústria à globalização foi feita gradualmente com a participação do Estado, diz. Aqui, o processo ocorreu numa velocidade incrível, sem suporte do Estado.
O diretor do sindicato, José Vitório Cordeiro Filho, diz que nunca, em anos de embates com as montadoras, viu um segundo semestre de cenário tão indefinido. Funcionário da Volkswagen, ele diz que não sabe por qual razão o consumidor, que deixou 170 mil veículos da linha 98 encalharem nos pátios das fábricas e nas revendedoras em julho, decidirá comprar o veículo da linha 99, que começa a ser produzido. Não há grandes novidades nos carros 99, existem ameaças de aumento de preços por parte das montadoras, o desemprego e a inadimplência se estabizaram num nível recorde, ou seja, por que o consumidor mudaria de ânimo? pergunta.


