A produção industrial brasileira recuou 2,5% em fevereiro sobre janeiro, na série livre de influências sazonais, a maior queda desde a retração de 12,2% de dezembro de 2008. A baixa foi puxada principalmente pela queda de 9,1% do setor de veículos automotores, segundo a Pesquisa Industrial Mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Fato que ajuda a explicar o motivo de o governo ter anunciado na noite do último sábado a manutenção dos descontos no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis até o fim do ano, mas que indica que a economia nacional ainda patina para engrenar neste ano. Por outro lado, o aumento de 1,6% na fabricação de bens de capital, que são maquinários e equipamentos, indica investimento na produção.
Sobre fevereiro do ano passado, a queda foi de 3,2%, mas o acumulado do ano ainda apresenta alta de 1,1% em relação aos dois primeiros meses de 2012. Índices que poderiam ser melhores não fosse a retração dos bens de consumo, de 6,8% em fevereiro sobre janeiro deste ano. A categoria se refere a automóveis, eletrodomésticos, móveis e celulares e é nos veículos que a queda foi maior, de 9,1%. Foi a redução mais expressiva no setor desde os 29,3% de janeiro de 2012.
O coordenador da pesquisa do IBGE, André Macedo, afirma que é possível que a queda na produção automotiva sofra influência de férias coletivas e paradas para modernização de parques industriais. "Também pode ser reflexo do retorno do IPI, voltando ao patamar acima do observado no ano passado", diz. Ele acredita que a menor intenção de consumo das famílias, a menor oferta de crédito e o aumento do endividamento também podem contribuir.
Para o economista Roberto Zurcher, da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), embora fevereiro seja um mês atípico por ser mais curto, a pesquisa mostra que a recuperação da economia ainda é lenta e não conseguiu decolar. "As pessoas ainda estão com um pé atrás em relação ao futuro. A causa principal é a desaceleração da economia e o fato de, no início do ano, as pessoas direcionarem os gastos para pagamento de contas do fim de ano e impostos."
Zurcher lembra que o acumulado do ano ainda está positivo e que o aumento na produção de bens de capital aponta para um crescimento mais acentuado do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano em relação a 2012. "Na indústria, qualquer mudança demora uns seis meses para surtir efeito e ainda não sentimos o resultado de ações aplicadas no fim do ano passado", conta. Porém, ele considera que falta planejamento no governo brasileiro. "As medidas tomadas são necessárias, mas todas paliativas. Não há um projeto de longo prazo."
Opinião semelhante tem o professor de economia José Moraes Neto, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). "A queda de consumo também nos bens não duráveis (de 2,1% sobre janeiro) começa a levantar suspeitas de que as políticas de redução de tributos perderam eficiência. Não é porque está barato que a pessoa vai trocar de geladeira todos os anos", comenta.
Moraes Neto concorda que o crescimento de bens duráveis serve de alento, porque atendem necessidades de infraestrutura e de um melhor desempenho agrícola e de transporte de cargas, mas diz que é pouco. "O comportamento do setor industrial em fevereiro poderia por abaixo a previsão de crescimento do PIB, mas, por outro lado, 2012 foi tão ruim que é possível chegar a 3%", afirma. Zurcher considera que tudo depende de como o governo vai conduzir a economia. "Nossa taxa de comparação ainda é com o início do ano passado, quando a economia estava aquecida. Depois, a produção retraiu, então tende a melhorar até o fim de 2013", explica.

Imagem ilustrativa da imagem Queda da produção industrial em fevereiro liga sinal de alerta
mockup