Arábia Saudita bombeia 9,9 milhões de barris ao dia; sete milhões de barris diários são destinados à exportação
Arábia Saudita bombeia 9,9 milhões de barris ao dia; sete milhões de barris diários são destinados à exportação | Foto: Fayez Nureldine/AFP

Os ataques à Arábia Saudita, no último sábado (14), representam a maior queda na produção de petróleo da história. Serão 5,7 milhões de barris a menos por dia, cerca de 6% de toda a produção mundial. Nesta segunda-feira (16) o preço do barril sofreu o maior aumento percentual em 11 anos. A commodity fechou em alta de 13%, a US$ 68 (R$ 278,12).

Maior exportador mundial de petróleo, a Arábia Saudita sofreu ataques à usina de Abqaiq e ao campo de Khurais. O ministro da Energia saudita, o príncipe Abdel Aziz bin Salman, afirmou que usaria os estoques do país para compensar parcialmente a perda, mesma ação adotada pelos Estados Unidos, na tentativa de acalmar o mercado.

Rebeldes houthis, do Iêmen, reivindicaram a autoria dos ataques, mas o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, culpa exclusivamente o Irã.

O diretor-geral da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), Décio Oddone, disse que o caso é equivalente ao atentado contra às torres gêmeas, nos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, ao se considerar o risco ao mercado de petróleo. "Do ponto de vista do risco, o evento de sábado pode ser considerado uma espécie de 9/11 (ataque às torres gêmeas) do mercado do petróleo. Depois dele a sensação de risco aumentará", escreveu Oddone, em sua conta no Twitter.

Já o presidente da AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil), José Augusto de Castro, disse à FOLHA que a atual crise lembra a crise do Petróleo de 1973, quando a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) boicotou os Estados Unidos por causa do apoio do país à Israel na guerra de Yom Kippur. “Naquele ano, o preço do petróleo subiu 10 dólares num dia. Agora, subiu 9 dólares”, afirmou.

Num primeiro momento, o Pré-Sal brasileiro deve se beneficiar da crise. Mas, para o presidente da AEB, o País perde na outra ponta porque também importa combustíveis. “Além disso, a atual crise tende a desacelerar a economia mundial, o que será ruim pra todo mundo. Acho que as perdas serão maiores que os ganhos.”

O ATENTADO

A Arábia Saudita lidera desde 2015 uma coalizão armada no Iêmen, contra os rebeldes huthis, e várias de suas infraestruturas energéticas já foram alvo de ataques, principalmente em maio e agosto. No entanto, acusações norte-americanas e sauditas de que o Irã poderia estar por trás do ataque feito no sábado, com uso de drones, alimentam novos temores geopolíticos.

A China fez na segunda (16) um apelo a Irã e EUA para que demonstrem "moderação", após as acusações de Washington a Teerã pelos ataques. "Na ausência de uma investigação incontestável que permita tirar conclusões, talvez não seja sensato imaginar quem deve ser responsabilizado por este ataque", afirmou Hua Chunying, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China.

Com base em fontes industriais, o boletim especializado Energy Intelligence garantiu que a gigante saudita Aramco tem condições de restaurar até 40% da produção perdida, cerca de 2,3 milhões de barris por dia. Ao citar fontes próximas ao caso, o "Wall Street Journal" estimou que levará semanas para restaurar a capacidade total de produção.

Como peso pesado da Opep, a Arábia Saudita bombeia 9,9 milhões de barris ao dia. Deste total, sete milhões de barris diários são destinados à exportação.

Para evitar risco de desabastecimento, houve corrida por contratos futuros do petróleo Brent, usado no mercado dos países europeus. A cotação chegou a bater US$ 71,95 na segunda-feira (16), alta de 19,5%. Nos EUA, que usa o WTI, o salto chegou a 15,5% e foi a US$ 63,34.

Na B3 (Bolsa de Valores de São Paulo), as ações da Petrobras fecharam na segunda-feira entre os destaques positivos. Os papéis PN tiveram alta de 4,39% e os ON, de 4,52%. (Com agências)

PETROBRAS MANTÉM PREÇOS E CONSUMIDORES AGUARDAM

Apesar da alta de 13% do petróleo Brent, de US$ 60,22 na sexta-feira (13) para US$ 68,09 às 18 horas de segunda-feira (16), os consumidores aguardam a reação da Petrobras, responsável por ditar o preço interno dos derivados de petróleo no País, ainda que já temam um possível reajuste. “Ouvi do responsável pela distribuidora que iriam discutir o tema em reunião, em São Paulo, e que há risco, mas os clientes não estão sabendo de nada ainda. Mesmo assim, abasteci normalmente hoje (segunda-feira) no pool de Londrina, com preço normal”, disse o proprietário do Auto Posto Cupimzão, Diogo Decker.

Postos na região central de Londrina ainda não enfrentavam filas de consumidores ou aparente reajuste
Postos na região central de Londrina ainda não enfrentavam filas de consumidores ou aparente reajuste | Foto: Gustavo Carneiro

A reportagem passou por 15 postos na região central e não havia filas ou aparente reajuste. Os valores pelo litro de gasolina estavam entre R$ 3,97 e 4,35. De acordo com a ANP (Agência Nacional do Petróleo), a média de preços na cidade na semana encerrada no último sábado (14) ficou em R$ 4,12, com mínima de R$ 3,97 e máxima de R$ 4,69.

Para os motoristas, porém, nada justifica uma corrida aos postos. “Só abasteço com gasolina no frio e, se estiver caro, uso álcool”, diz o projetista Reginaldo Gianetti. O empresário Moacir Lobo completa que é cedo para pensar em mudar o hábito de consumo. “Rodo muito e abasteço em todos os dias, então não vou encher o tanque. Mas, vai saber. No Brasil, a gasolina aumenta por qualquer coisa.”

Professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Maurício Canêdo diz esperar que a Petrobras mantenha a paridade com os preços internacionais. Mas teme que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) intervenha novamente na petrolífera como fez em abril deste ano determinando a suspensão do reajuste dos preços depois de pressionado por caminhoneiros. “Temos essa pulga atrás da orelha.”

Ele acredita que a decisão da empresa se dará conforme o tempo de duração da elevação dos preços internacionais. “Se o aumento perdurar por mais tempo, acho difícil que a Petrobras deixe de tomar alguma atitude (contra a paridade de preços)”, declara.

O coordenador do Procon de Londrina (Núcleo Municipal de Proteção e Defesa do Consumidor), Gustavo Richa, afirma que, em tese, os postos só deveriam reajustar preços no fim dos estoques antigos, caso ocorra reajuste na distribuidora. O órgão mantém o acompanhamento do mercado para averiguar eventuais irregularidades, como remarcação de preços de forma combinada ou injustificada. “Se o consumidor estranhar algum aumento repentino, pode denunciar ao Procon e vamos ao local averiguar”, diz. (F.G.)

Para Moacir Lobo, ainda é cedo para pensar em mudar o hábito de consumo
Para Moacir Lobo, ainda é cedo para pensar em mudar o hábito de consumo | Foto: Gustavo Carneiro
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