Queda da produção de petróleo é recorde com ataques à Arábia Saudita
Mercado calcula que serão 5,7 milhões de barris a menos por dia, cerca de 6% de toda produção mundial
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de setembro de 2019
Mercado calcula que serão 5,7 milhões de barris a menos por dia, cerca de 6% de toda produção mundial
Fábio Galiotto e Nelson Bortolin - Reportagem Local 

Os ataques à Arábia Saudita, no último sábado (14), representam a maior queda na produção de petróleo da história. Serão 5,7 milhões de barris a menos por dia, cerca de 6% de toda a produção mundial. Nesta segunda-feira (16) o preço do barril sofreu o maior aumento percentual em 11 anos. A commodity fechou em alta de 13%, a US$ 68 (R$ 278,12).
Maior exportador mundial de petróleo, a Arábia Saudita sofreu ataques à usina de Abqaiq e ao campo de Khurais. O ministro da Energia saudita, o príncipe Abdel Aziz bin Salman, afirmou que usaria os estoques do país para compensar parcialmente a perda, mesma ação adotada pelos Estados Unidos, na tentativa de acalmar o mercado.
Rebeldes houthis, do Iêmen, reivindicaram a autoria dos ataques, mas o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, culpa exclusivamente o Irã.
O diretor-geral da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), Décio Oddone, disse que o caso é equivalente ao atentado contra às torres gêmeas, nos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, ao se considerar o risco ao mercado de petróleo. "Do ponto de vista do risco, o evento de sábado pode ser considerado uma espécie de 9/11 (ataque às torres gêmeas) do mercado do petróleo. Depois dele a sensação de risco aumentará", escreveu Oddone, em sua conta no Twitter.
Já o presidente da AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil), José Augusto de Castro, disse à FOLHA que a atual crise lembra a crise do Petróleo de 1973, quando a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) boicotou os Estados Unidos por causa do apoio do país à Israel na guerra de Yom Kippur. “Naquele ano, o preço do petróleo subiu 10 dólares num dia. Agora, subiu 9 dólares”, afirmou.
Num primeiro momento, o Pré-Sal brasileiro deve se beneficiar da crise. Mas, para o presidente da AEB, o País perde na outra ponta porque também importa combustíveis. “Além disso, a atual crise tende a desacelerar a economia mundial, o que será ruim pra todo mundo. Acho que as perdas serão maiores que os ganhos.”
O ATENTADO
A Arábia Saudita lidera desde 2015 uma coalizão armada no Iêmen, contra os rebeldes huthis, e várias de suas infraestruturas energéticas já foram alvo de ataques, principalmente em maio e agosto. No entanto, acusações norte-americanas e sauditas de que o Irã poderia estar por trás do ataque feito no sábado, com uso de drones, alimentam novos temores geopolíticos.
A China fez na segunda (16) um apelo a Irã e EUA para que demonstrem "moderação", após as acusações de Washington a Teerã pelos ataques. "Na ausência de uma investigação incontestável que permita tirar conclusões, talvez não seja sensato imaginar quem deve ser responsabilizado por este ataque", afirmou Hua Chunying, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China.
Com base em fontes industriais, o boletim especializado Energy Intelligence garantiu que a gigante saudita Aramco tem condições de restaurar até 40% da produção perdida, cerca de 2,3 milhões de barris por dia. Ao citar fontes próximas ao caso, o "Wall Street Journal" estimou que levará semanas para restaurar a capacidade total de produção.
Como peso pesado da Opep, a Arábia Saudita bombeia 9,9 milhões de barris ao dia. Deste total, sete milhões de barris diários são destinados à exportação.
Para evitar risco de desabastecimento, houve corrida por contratos futuros do petróleo Brent, usado no mercado dos países europeus. A cotação chegou a bater US$ 71,95 na segunda-feira (16), alta de 19,5%. Nos EUA, que usa o WTI, o salto chegou a 15,5% e foi a US$ 63,34.
Na B3 (Bolsa de Valores de São Paulo), as ações da Petrobras fecharam na segunda-feira entre os destaques positivos. Os papéis PN tiveram alta de 4,39% e os ON, de 4,52%. (Com agências)
PETROBRAS MANTÉM PREÇOS E CONSUMIDORES AGUARDAM
Apesar da alta de 13% do petróleo Brent, de US$ 60,22 na sexta-feira (13) para US$ 68,09 às 18 horas de segunda-feira (16), os consumidores aguardam a reação da Petrobras, responsável por ditar o preço interno dos derivados de petróleo no País, ainda que já temam um possível reajuste. “Ouvi do responsável pela distribuidora que iriam discutir o tema em reunião, em São Paulo, e que há risco, mas os clientes não estão sabendo de nada ainda. Mesmo assim, abasteci normalmente hoje (segunda-feira) no pool de Londrina, com preço normal”, disse o proprietário do Auto Posto Cupimzão, Diogo Decker.

A reportagem passou por 15 postos na região central e não havia filas ou aparente reajuste. Os valores pelo litro de gasolina estavam entre R$ 3,97 e 4,35. De acordo com a ANP (Agência Nacional do Petróleo), a média de preços na cidade na semana encerrada no último sábado (14) ficou em R$ 4,12, com mínima de R$ 3,97 e máxima de R$ 4,69.
Para os motoristas, porém, nada justifica uma corrida aos postos. “Só abasteço com gasolina no frio e, se estiver caro, uso álcool”, diz o projetista Reginaldo Gianetti. O empresário Moacir Lobo completa que é cedo para pensar em mudar o hábito de consumo. “Rodo muito e abasteço em todos os dias, então não vou encher o tanque. Mas, vai saber. No Brasil, a gasolina aumenta por qualquer coisa.”
Professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Maurício Canêdo diz esperar que a Petrobras mantenha a paridade com os preços internacionais. Mas teme que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) intervenha novamente na petrolífera como fez em abril deste ano determinando a suspensão do reajuste dos preços depois de pressionado por caminhoneiros. “Temos essa pulga atrás da orelha.”
Ele acredita que a decisão da empresa se dará conforme o tempo de duração da elevação dos preços internacionais. “Se o aumento perdurar por mais tempo, acho difícil que a Petrobras deixe de tomar alguma atitude (contra a paridade de preços)”, declara.
O coordenador do Procon de Londrina (Núcleo Municipal de Proteção e Defesa do Consumidor), Gustavo Richa, afirma que, em tese, os postos só deveriam reajustar preços no fim dos estoques antigos, caso ocorra reajuste na distribuidora. O órgão mantém o acompanhamento do mercado para averiguar eventuais irregularidades, como remarcação de preços de forma combinada ou injustificada. “Se o consumidor estranhar algum aumento repentino, pode denunciar ao Procon e vamos ao local averiguar”, diz. (F.G.)



