São Paulo - Ao manter a meta de inflação congelada em 4,5% desde 2005, a equipe econômica tirou do regime de metas o seu papel prioritário: a redução paulatina da inflação. Quanto a isso, os economistas ouvidos pela reportagem concordam, mas o professor de economia da Universidade de São Paulo, Heron do Carmo, é o mais enfático. ''O regime de metas é para reduzir a inflação e mantê-la lá embaixo. Já estamos há 16 anos do Plano Real e ainda estamos nisso. O regime de metas não está desempenhando o papel de reduzir a inflação.''
Na avaliação de Heron, manter a meta de inflação em 4,5% por tanto tempo é o mesmo que dar uma nova coloração à tradicional cultura da indexação ainda presente na sociedade brasileira. ''É um regime de inflação heterodoxo, que mistura a nossa antiga heterodoxia com o regime de metas'', acrescenta. Para ele, quando o País tiver uma inflação de 2%, não será mais preciso reajustar contratos todos os anos.
Para o sócio da MCM Consultores, Antônio Madeira, o pior é que o governo perdeu uma grande oportunidade de reduzir a meta quando o IPCA fechou em 4,31% em 2009 - abaixo do centro da meta, de 4,5%. Isso, segundo Heron, ajudaria o Banco Central a ter justificativas para suas decisões. Ambos concordam que, para manter a meta inflacionária em 4,5%, a taxa de juros não precisaria estar tão elevada, como está, em 10,75% ao ano. Mas, para manter os juros no patamar atual, a meta de inflação já deveria estar mais baixa.
''Quando vi no jornal que a candidata (Dilma Rousseff) tinha afirmado que reduziria a meta de inflação, disse para mim mesmo: ela está certa. É isso mesmo que tem de ser feito. Mas depois ela voltou atrás...'', lamenta Heron do Carmo. A candidata do PT teria incluído entre as propostas econômicas em estudo por seus assessores a redução da meta de inflação.
''A meta de inflação tem papel importante na formação de expectativas. Portanto, se o governo reduzisse a meta e não alterasse a forma de atuação do BC, de perseguir a meta, isso surtiria efeito nas expectativas de longo prazo, sinalizaria para outros preços na economia e ajudaria o BC a trabalhar com uma taxa de juro real menor'', analisa Madeira, para quem a discussão não pode ser feita considerando apenas o papel do BC. ''É preciso uma coordenação da política monetária com as políticas fiscal e creditícia do governo federal.''
O professor de econometria e coordenador do Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Paulo Picchetti, defende a mesma tese de Madeira e de Heron, sugerindo uma operação coordenada entre as políticas monetária, fiscal e creditícia como um bom ponto de partida para a redução da meta. (F.C.A.)

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