São Paulo - O avanço da soja no verão empurrou o plantio de milho para o inverno nos últimos anos. Mas esse período, devido às geadas, sempre foi de grande incerteza para a produção. Neste ano, há quebra na safra de verão em todos os Estados do Sul, inclusive no Paraná, o líder nacional. Essa redução de oferta no verão coloca ainda mais em evidência a produção do inverno, a chamada safrinha.
''Agora tudo depende da safrinha.'' É o que afirma Leonardo Sologuren, analista da consultoria Céleres, de Uberlândia (MG). Segundo ele, por conta dessa incerteza, o mercado deverá ficar muito agitado até maio.
E a safrinha não começa com o pé direito. Pelo menos 40% da área já foi semeada no líder Paraná, mas a seca começa a afetar o plantio em algumas regiões.
Dirlei Antonio Manfio, chefe do setor de previsão de safras do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento (Seab), diz que deve ser semeado próximo de 1 milhão de hectares nesta safrinha. As previsões iniciais indicavam uma produção de 3,9 milhões de toneladas. Devido à falta de chuva em algumas regiões já semeadas, essa estimativa foi reduzida para 3,55 milhões.
Além de problemas no milho já plantado, o Paraná está perdendo o prazo ideal para semear o que falta. Muitos produtores devem optar pelo trigo. Fernando Muraro, da Agência Rural, de Curitiba, diz que ''a safrinha realmente é sempre muito incerta''. Se o período já é de incerteza, neste ano tem vários agravantes. ''Está sendo um plantio desmotivado e atrasado.'' Os preços do milho estavam baixos, o produtor investiu pouco em tecnologia, principalmente porque os custos subiram. Além disso, o plantio está sendo feito em meio a uma forte estiagem, diz ele.
Preços - Mas o mercado já começa a reagir a essa piora no cenário de oferta de milho. Nos últimos 30 dias, a saca teve alta de R$ 2, chegando a R$ 18,50 no Sul. Indústrias e consumidores têm buscado o mercado futuro para se defender dessa instabilidade de preços.
No primeiro bimestre deste ano, os contratos futuros de milho abertos na Bolsa de Mercadorias & Futuros somaram 11 mil, 79% a mais do que no mesmo período do ano passado.
Muraro diz que as indústrias consumidoras têm motivos para preocupação porque o quadro de oferta é de aperto. A oferta total deste ano - incluindo estoques de passagem, produção nas safras de verão e de inverno e os substitutos, como sorgo e milheto -, soma 43,2 milhões de toneladas, para consumo de 41,2 milhões.
Sologuren concorda que o cenário é de aperto, mas tem números um pouco mais folgados. Na avaliação da Céleres, a oferta total de milho será de 44,1 milhões de toneladas. A de sorgo, de 2 milhões. A demanda fica em 41 milhões de toneladas. O analista da Céleres vê espaço, inclusive para exportações de 3 milhões a 3,5 milhões de toneladas, dependendo do rendimento da safrinha.
Apesar da previsão de oferta apertada, algumas mudanças atuais no mercado podem elevar a oferta de milho. A recente alta está incentivando mais produtores paranaenses a optar pelo cereal, mesmo que o plantio já esteja saindo do prazo ideal. A lenta recuperação do dólar vai favorecer as exportações e dificultar as importações, que seriam facilitadas com o dólar desvalorizado porque o mercado externo está bastante abastecido. Os EUA produziram safra recorde de 300 milhões de toneladas e a Argentina, de 19 milhões. No ano passado, os argentinos haviam produzido apenas 12 milhões de toneladas.

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