São Paulo O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) voltou a mexer com os mercados de grãos, soja e algodão ao divulgar seu mais novo relatório mensal de oferta e demanda com estimativas para as safras 2003/2004 dos EUA e do mundo. Os preços futuros da soja e do algodão dispararam e marcaram novas máximas, enquanto o milho e o trigo tiveram uma reação negativa ao relatório. O clima seco e quente na maior parte dos meses de julho e agosto no hemisfério norte levou o USDA a cortar a estimativa da safra de soja 2003/2004 dos EUA para 71,93 milhões de toneladas, contra as 77,89 milhões de toneladas do relatório de agosto.
Analistas em Chicago ficaram surpresos com a proporção do corte, à medida que esperavam um número em torno de 75,04 milhões de toneladas. ''Os produtores que participaram do tour da Pro Farmer dizem que o número do governo não é uma surpresa e reflete as condições da safra norte-americana, mas eu e outros analistas ficamos surpresos com o fato de o USDA ter cortado significativamente a safra já neste relatório'', disse Jack Scoville, vice-presidente do Price Futures Group de Chicago.
Na Chicago Board of Trade (CBOT), o contrato com vencimento em novembro chegou a bater em US$ 6,300 por bushel (equivalente a 27 quilos) com uma ''explosão'' de compras especulativas, mas perdeu parte dos ganhos e fechou a US$ 6,1575 por bushel, com alta de 19,25 cents, seguindo vendas de produtores nas altas. ''Esta é uma boa hora para vocês aí no Brasil venderem'', completou. O contrato para março de 2004 bateu nos US$ 6,260 por bushel, mas fechou a US$ 6,1075 por bushel, alta de 16 cents no dia.
Liderança No relatório, o USDA manteve as projeções para a produção de soja no Brasil e na Argentina, em 56 milhões de toneladas e 37 milhões de toneladas, respectivamente. Juntos, Brasil e Argentina consolidam a liderança na produção e exportação mundial de soja e derivados, com colheita estimada em 93 milhões de toneladas no próximo verão. Entre analistas e corretores brasileiros, o sentimento é de que o repique nos preços futuros pode ampliar a próxima safra de soja na América do Sul. As estimativas mais otimistas já apontam colheita acima de 58 milhões de toneladas no Brasil e em torno de 40 milhões de toneladas na Argentina.
Segundo o analista André Pessôa, sócio-diretor da AgroConsult, a relação de estoque/uso mundial (proporção de mercadoria armazenada em relação ao consumo anual projetado) ficou em 17,2% para 2003/04, a partir das novas projeções do USDA. ''É uma relação muito semelhante à do ano anterior, o que significa, em tese, preços sustentados'', explica Pessôa. Mas ele ressalta que ainda falta computar a real produção na América do Sul.
A nova relação estoque/uso mundial leva Pessôa a calcular o preço médio da soja em 2004 em torno de US$ 5,50 o bushel, abaixo dos atuais US$ 6,00 na CBOT, mas acima dos US$ 5,00 projetados anteriormente.
Considerando a exportação de soja em grão brasileira projetada em cerca de 23 milhões de toneladas em 2003/04, o repique de preços provocado pela quebra da safra norte-americana anunciada ontem pelo USDA poderá render ao País uma receita cambial extra superior a US$ 400 milhões no ano que vem.

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