Quarto ano do Real promete estabilidade
Amanhã o Plano Real completa três anos.
Não espere por mudanças expressivas na economia neste quarto ano. Em 1998 haverá eleições, e dificilmente o governo arriscaria manobras radicais que possam comprometer a candidatura de Fernando Henrique Cardoso a mais um mandato na Presidência. Até porque, do ponto de vista de controle da inflação e estabilidade da moeda, é inquestionável o sucesso do Plano Real.
Em contrapartida, há unanimidade entre os economistas sobre os dois principais problemas a ser enfrentados pelas autoridades econômicas: o déficit em transações correntes - saída de dólares do País superior à entrada - e o crescimento do déficit fiscal - rombo nas contas do governo. As diretrizes da política econômica, portanto, deverão ser definidas de modo a resolver esses gargalos. Entenda como isso vai mexer com o nosso bolso.
Para o economista Eduardo Gianetti da Fonseca, essas questões não chegam a ameaçar o plano, mas colocam sombra no futuro, porque nos condenam ao baixo crescimento econômico.
O raciocínio aí é o seguinte: a entrada de dólares no País por meio de exportações, investimento direto em negócios produtivos, financiamento de empresas, lançamento de títulos no exterior, investimento em Bolsas, etc. é inferior à saída de dólares por meio de importação, remessa de lucros e dividendos de filiais aqui instaladas para suas matrizes, pagamento de royaltes, viagens e contratação de seguros internacionais para grandes operações, etc.
O saldo negativo nessa conta é desconfortável para o governo, porque caso haja interrupção na entrada de dólares será preciso lançar mão das reservas cambiais em poder do Banco Central. Medida que traz risco ao plano, já que é sustentado pela âncora cambial (que banca as importações e a abertura da economia) e o País precisa das reservas para honrar compromissos externos.
Os investimentos diretos estrangeiros no País devem ficar em torno de US$ 12 bilhões este ano, segundo o presidente do Conselho Regional de Economia, Antônio Corrêa de Lacerda, o que traz um certo alento. Mas para evitar esse déficit, estimado por Lacerda em algo entre US$ 33 bilhões e US$ 35 bilhões em 97, o governo tem como um dos principais trunfos brecar a saída de dólares por meio de restrições a importações. Para alcançar esse objetivo, não fica descartada a possibilidade de que as autoridades econômicas adotem medidas que mantenham o consumo sob controle, especialmente no segundo semestre, quando o aumento da demanda leva as empresas a aumentar o nível de importação.
A questão do déficit fiscal também incomoda, como ressalta o presidente da Nossa Caixa Nosso Banco, Joaquim Elói Cirne de Toledo, porque para financiá-lo o governo precisa manter as taxas de juro em níveis mais elevados do que deveria. É que, por tabela, essa medida contribui para inibir o consumo e para atrair investimento estrangeiro, mas dificulta a expansão do setor produtivo, que necessita financiar-se.
As opiniões dos economistas também convergem no sentido de que as taxas de juro devem seguir elevadas, o real deverá manter-se valorizado em relação ao dólar e a inflação tende a continuar caindo. Medidas do tipo arroz com feijão deverão ser tomadas de modo a ajustar o rumo do plano, mas sem sobressaltos.
Isso permite dizer que teremos de continuar convivendo com o desemprego, com as dificuldades para bancar os juros de financiamentos, sem perspectivas de reajustes generosos de salário. O arrocho financeiro deve contribuir para ajustes nos preços, especialmente dos serviços.
Como alerta Lacerda, com o freio no crescimento econômico, as transformações tecnológicas e a decisão das empresas de deixar de produzir para importar, o número de pessoas que trabalham no setor informal, sem registro e benefícios, acaba superando o do setor formal. Se isso, por um lado, beneficia o consumidor num primeiro momento, por outro prejudica o mercado de trabalho local. Mas como lembra Odair Abate, economista-chefe do Lloyds Bank, nossa taxa de desemprego, próxima de 5,5%, é pequena se comparada com a de outros países emergentes, como a Argentina, entre 17% e 18%.
Para Gianetti da Fonseca, sem as reformas estruturais é impossível crescer. Abate também concorda que é tímido o avanço das reformas constitucionais, como a da Previdência, Administrativa e Tributária, o que cria temor no investidor estrangeiro.





