Sempre que chega a Quaresma, os supermercados e casas especializadas criam espaços exclusivos para o bacalhau. De acordo com o comerciante Antonio Furuta, dono de uma tradicional mercearia em Londrina, o consumo nesta época aumenta em até seis vezes em comparação com outras épocas do ano. Mas uma boa parte dos consumidores não associa a compra à tradição religiosa, afirmando que se trata apenas de ‘‘mera coincidência’’.
  A dona de casa Maria José do Nascimento Araujo estava no supermercado para comprar um quilo de bacalhau, mas reclamou do preço. ‘‘Está um pouquinho salgado; não é uma coisa que está ao alcance do povão o tempo todo’’, disse. Segundo ela, não havia nenhum motivo especial para a compra do produto. ‘‘Não acho que a Quaresma seja uma época exclusiva para o consumo de bacalhau. Acho que isto acontece mais por uma questão de costume, de tradição mesmo e por causa da propaganda’’.
  Na casa do contador João Martins moram cinco pessoas: ele, a esposa e três filhos, mas não há unanimidade em termos de preferência pelo bacalhau. Na hora da compra, o contador diz que leva em conta a aparência, a espessura e a qualidade do produto. ‘‘Para mim, o bacalhau deve ser vistoso’’, afirma. Ele acha que o produto está caro atualmente, entre R$ 40,00 e R$ 50,00 o quilo do tipo Porto. ‘‘Realmente não é um preço acessível a toda a população; poderia ser mais barato’’. Martins não vincula o consumo de bacalhau à Quaresma. ‘‘A gente come este produto em qualquer época do ano. Do ponto de vista de saúde é ideal e isso justifica a compra’’, argumenta.
  A família de Celina Wissner tem um restaurante em Apucarana, que não faz pratos à base de bacalhau. Em passeio por Londrina, ela aproveitou para passar em um supermercado e comprar ‘‘uns’’ dois quilos do produto para consumo próprio. Na casa de Celina moram cinco pessoas: ela, o marido, a filha, o genro e uma neta de sete meses. ‘‘A menina ainda não come bacalhau, mas acho que vai gostar’’.
  A empresária disse que o fato de comprar o bacalhau em plena Quaresma é mera coincidência. ‘‘Quando dá vontade, a gente compra, mas isto acontece com maior freqüência nesta época’’, disse. Celina estava estava com a família no supermercado, e diz que quem entende mesmo do assunto é o marido, o empresário Ivo Wissner. Ela sempre leva em conta o preço do bacalhau na hora da compra. ‘‘Hoje ele está superbarato, apenas R$ 39,90 o quilo’’, afirmou.


Retirada do sal deve ser cuidadosa
  A nutricionista Beatriz Ulate afirma que o bacalhau é um alimento de grande valor protéico, a exemplo de outros peixes de água salgada. ‘‘A diferença é ser mais caro’’, brinca. Segundo ela, o bacalhau tem gorduras benéficas para o coração. ‘‘O único problema é a pessoa fazer a dessalga corretamente’’, afirma. E quem sofre de hipertensão deve fazer a retirada do sal de maneira mais atenta ainda para evitar problemas de saúde.
  Beatriz fala sobre os cuidados que são necessários para a dessalga do bacalhau. O primeiro é deixar o produto de molho de um dia para o outro e o segundo é que este processo seja feito sob refrigeração, ou seja, na geladeira. A água deve ser trocada várias vezes. ‘‘Como o nosso clima é muito quente, o risco do bacalhau se deteriorar é muito grande’’, justifica.
  A nutricionista acha desnecessário a pessoa comprar o bacalhau na forma como é vendido, retirar o sal e depois congelar o produto. Segundo ela, o sal é o mais antigo conservante que existe e, por causa disso, já foi usado inclusive como moeda. Beatriz lembra que o bacalhau pode ser conservado por vários meses na forma como é comercializado, desde que não fique próximo à umidade.(E.A.)

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