Quando poupar é sofrer
Quando poupar é sofrer
Consumir. Pergunte-se a uma criança ainda de pernas bambas o que quer dizer a palavra consumir e ela responderá num estalo: consumir é comprar, é adquirir, é comer, é vestir, é viajar, é brincar, é satisfazer. Essa percepção infantil é ditada pelo senso comum. O que explica a recente coroação do consumidor como o novo monarca da economia moderna. Quem não souber encher o consumidor de agrado estará definitivamente banido do mercado.
Não é nada disso que o brasileiro encontra no Novo Dicionário Aurélio. O verbo consumir (do latim consumere) é assim apresentado pelo Aurélio: 1. Gastar ou corroer até a destruição; 2. Devorar, destruir, extinguir; 3. Esgotar, aniquilar, anular; 4. Desgostar, afligir, mortificar. Só faltou acrescentar: Consumir? Cruz-credo!
Pode? O dicionário não faz qualquer conotação positiva ou construtiva com o fato econômico do consumo, pau da barraca da produção e do emprego. Ou como ensina a consumer driven culture dos americanos: Eu consumo; logo, existo. Eu consumo; logo, emprego. O verbete do Aurélio bem que poderia ser traduzido e exportado para o Japão. A segunda economia mais poderosa do mundo acaba de bater com a cabeça no teto da saturação do mercado interno. O consumidor japonês está com a poupança e não abre. As famílias poupam 9,4% do PIB, contra 6,4% na Suíça ou 3,1% nos Estados Unidos. Poupança no sentido bíblico de São Lucas - para quem poupar é privar-se, é renunciar, é sofrer.
A coisa chegou a tal ponto que a economia japonesa não mais consegue desvencilhar-se das amarras da estagnação. Ela deve fechar o ano com queda de 1,8% no PIB de US$ 4,7 trilhões. Com desemprego de 4,8%, o maior do pós-guerra. De nada adianta um estrondoso superávit externo, uma poupança interna sem paralelo no mundo e na História (de quase um terço do PIB a cada ano), um crédito bancário abundante e barato (abaixo de 5% ao ano), uma inflação perto de zero e uma carga tributária inferior a 17% do PIB, quase metade da carga brasileira (que sobe agora para 32,5%).
Para arrancar o consumidor da toca, reativar a economia e aliviar a tensão política represada na Ásia e no mundo - nesta crise global on-line - o governo japonês acaba de catapultar um pacotaço afrodisíaco de US$ 196 bilhões. Mistura de redução seletiva de impostos com aumento de dotações para planos e obras. De sobremesa, um programa inaudito de vale-consumo, da ordem de US$ 160 para cada japonês com menos de 15 ou mais de 65 anos de idade.
Será que agora a coisa vai? Nove em cada dez analistas dizem que o Efeito Viagra do pacotaço japonês vai ficar na miragem. Ele não passa de uma jogada ensaiada para uso externo: romper o cerco sobre o primeiro-ministro Keizo Obuchi, figura central na Cúpula da Ásia, realizada esta semana na Malásia.





