‘‘Para o brasileiro, a agricultura é algo importante. Para o americano, a agricultura é algo prioritário.’’
Benedito Rosa do Espírito Santo, secretário de Política Agrícola
Recapitulando: carne magra de boi gordo, gordura separada da carne, é milagre dietético de raças zebuínas com adição de raças européias. As primeiras entram com a rusticidade e as segundas com o ganho de peso. A rusticidade é exigência do criatório a céu aberto, o do boi de capim, em condições sanitárias adversas. O ganho de peso é exigência do abate precoce a carga plena (18/20 meses), boi de capim com aceleração em confinamento à base da ração.
Eis aí a proteína vermelha do futuro, hegemonia brasileira, tratada nesta coluna em ‘‘Picanha global’’ (6/4/2002). Desenhada por técnicos brasileiros e estrangeiros, apresentou-se ali a perspectiva do triunfo final da carne magra de boi gordo (gordura separada da carne e tirada na faca) sobre a carne gorda de boi gordo (gordura estriada, entremeada ou marmorizada na carne, gordura só tirada no fogo).
Ah! O mundo veio abaixo. Dezenas de e-mails de peritos do Brasil e do Exterior apoiando a tese ou contestando a própria. E não só por condicionantes genéticas e dietéticas, também por inclinações mercadológicas manipuláveis. Tive de ceder o mesmo espaço aos defensores da carne gorda na coluna ‘‘O boi é manso’’ (13-4-2002).
E tome discussão sobre as chamadas ‘‘alianças mercadológicas’’ de padronização das carnes bovinas diversas. Invenção americana, cada ‘‘beef alliance’’ cuida de estabelecer e administrar teores de gordura e aditivos de hormônios e anabolizantes ‘‘de acordo com o gosto da clientela’’. A maior dessas alianças, a ‘‘Certified Angus Beef’’ determina que os animais de abate sejam ‘‘médium choice’’, com gordura entremeada de no mínimo 5% no meio do contrafilé. Carne gorda, mesmo, escreveu à coluna o professor Dante Passanese Lanna, da Esalq/USP.
Com o adendo: até prova em contrário, o mercado global estará dando preferência ao churrasco gordo com rastreabilidade na embalagem. Certo? Não é por aí, questiona Breno Carvalho Pereira, escoltado por Luiz Fernando Furlan. O primeiro é consultor de planejamento agropecuário e presidente do Conselho Técnico da Associação Brasileira de Criadores da Raça Piemontesa. O segundo é presidente do Grupo Sadia, maior produtor/exportador de proteínas animais do Brasil.
Enquanto Luiz Fernando Furlan sugere uma promoção maciça, em meio mundo, da carne magra brasileira sem similar, Carvalho Pereira lembra que é tudo uma questão de marketing pelo poder de fogo de cada ‘‘beef alliance’’. Esta percorre ponta a ponta da cadeia bovina, culminando no pacto de mercado cativo com o supermercado ou a churrascaria da esquina. E cadê nossas ‘‘beef alliances’’?
Secos & Molhados
Carne de vaca - O consumidor contenta-se em distinguir carne de segunda (ou de dianteiro) e/ou carne de primeira (ou de traseiro). Somos o único mercado do mundo que esnoba o corte transversal da carcaça. Ademais, metade do consumo nacional é servida pela boiada invisível da sonegação fiscal e do abate clandestino.
Para todos - Luiz Fernando Furlan propõe marcas e selos globais para as carnes brasileiras de boi, de frango, de porco e de cordeiro. A partir, claro, do controle de qualidade também para uso interno, na base do ‘‘agregar valor é preciso’’. Ele articula um ‘‘front’’ promocional único para todas as carnes de exportação e lembra que até o pessoal da cachaça já iniciou um programa de ‘‘appellation d’origine controlée’’.
Uma guinada? - Última forma! O americano Lee Lechman, maior vendedor de touros do mundo, acaba de lançar a aliança mercadológica ‘‘Better Beef’’ (www.betterbeef.com). Uma carne mais macia que a do Angus e mais magra que a do frango. Uau!

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