Brasília - O anúncio de que o Fundo Monetário Internacional (FMI) estaria disposto a criar uma regra especial de contabilidade para investimentos do setor público, deixando de contar alguns deles como despesa, causou frisson na Esplanada dos Ministérios. No entanto, a área técnica estava ontem mergulhada num verdadeiro ''samba do crioulo doido'', tamanho o desencontro de informações. Entre os técnicos, as interpretações sobre o que está sendo discutido em Washington eram as mais variadas e divergentes. A mesma confusão levou a uma série de projeções sobre quanto representaria em recursos a nova fórmula de cálculo.
A ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, afirmou que poderia investir de R$ 3,5 bilhões a R$ 4 bilhões por ano. O presidente da Petrobras, José Eduardo Dutra, estimou novos investimentos da ordem de R$ 7 bilhões. O vice-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Darc Costa, estimou que seria possível liberar uma carteira de R$ 5,6 bilhões em investimentos, sendo R$ 2,6 bilhões para o setor elétrico e R$ 3 bilhões para infra-estrutura. Eliminando-se a dupla contagem, seriam novos investimentos entre R$ 12,6 bilhões e R$ 14 bilhões.
Essa estatística não leva em conta outra proposta, defendida pelo ministro do Planejamento, Guido Mantega, de deixar de contar como despesas os investimentos financiados com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do Banco Mundial (Bird). A carteira com essas duas instituições chega perto de US$ 9 bilhões - aproximadamente R$ 27 bilhões -, se for considerada a parte financiada por esses organismos e a contrapartida a ser paga pelo Brasil.
Para o consultor Raul Velloso, a nova regra - se for confirmada pelo FMI - fará pouca diferença no gasto público brasileiro. ''Não consigo ver muito samba nisso'', disse. Ele acha que o Fundo não concordaria com regras que colocassem em risco a trajetória declinante da relação dívida/PIB.
Indicações ainda mais desalentadoras vinham de Washington, onde se informava que tudo o que existe no Fundo são ''estudos''. Nada seria decidido a curto prazo, segundo informaram fontes. O presidente da Comissão Mista de Orçamento, deputado Paulo Bernardo (PT-PR), disse que vai pedir a um integrante da equipe econômica que vá ao Congresso explicar as discussões com o FMI. ''Parece uma boa novidade'', comentou. ''Reforça a posição do Brasil, que não teria conseguido abrir esse debate se a política econômica não tivesse credibilidade.'' Ele acha que a nova regra mostra uma ''evolução'' da política econômica.

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