‘‘O ministro da Economia Domingo Cavallo é o cirurgião que precisa amputar um tumor, e a oposição não pode ficar atrapalhando a sala de operações’’. Com esta metáfora médica, o governador da província de Buenos Aires, Carlos Ruckauf, que desponta como líder do Partido Justicialista (mais conhecido como ‘‘Peronista’’), da oposição, declarou apoio ao projeto de cesta de moedas com o dólar e o euro, anunciado no fim de semana por Cavallo. Projeto será apresentado hoje em São Paulo.
Com este apoio, o governo avança em grande parte do caminho da aprovação da cesta de moedas no Congresso Nacional. O Congresso recebeu ontem o projeto da criação da cesta. O secretário para Assuntos Legais e Técnicos, Alfredo Castañón, explicou detalhes da cesta às lideranças dos blocos parlamentares.
Segundo ele, o projeto será debatido no plenário na próxima quarta-feira e votado em seguida. Castañón explicou que a criação da cesta ‘‘é uma medida importante para desativar rumores sobre a dolarização da economia ou desvalorização do peso’’. Na coalizão de governo Aliança UCR-Frepaso existe disposição de aprovar a cesta o mais breve possível. No entanto, uma relativa resistência à cesta provém dos parlamentares peronistas da oposição.
O líder do peronismo no Senado, José Luis Gioja, declarou que existem temores de que a cesta implique em uma desvalorização. O governo necessita da oposição para aprovar a ‘‘eurolização’’ da economia, já que qualquer mudança da Lei de Conversibilidade Econômica, que estabeleceu a paridade um a um entre o peso e o dólar, embora não esteja na Constituição, precisa de dois terços da Câmara e do Senado.
A conversibilidade possui um simbolismo especial para o peronismo, já que foi criada durante a presidência do peronista Carlos Menem (1989-99), acabando com a hiper-inflação. Além disso, o grupo de peronistas vinculados a Menem, embora pequeno, opõe-se à cesta, e em seu lugar prega a dolarização da economia. No entanto, a reação negativa nos mercados na segunda-feira assustou os peronistas. O vice-líder do bloco peronista na Câmara, Oscar Lamberto, anunciou ontem que os parlamentares vão agir com urgência. Mesmo que a aprovação do projeto ocorra na semana que vem, a cesta ficará em stand-by até o dia em que um euro valha um dólar.
Hoje, Cavallo estará em São Paulo para uma conferência no Parlatino com banqueiros e empresários, aos quais explicará os detalhes de seu plano de cesta de moedas. O ministro afirmou que ontem de manhã havia conversado com o presidente do Banco Central do Brasil, Armínio Fraga, que lhe disse que a idéia de passar por São Paulo é ‘‘muito boa’’. Cavallo disse que Fraga, ‘‘que é um homem muito inteligente’’ – segundo o argentino – também o alertou para artigos publicados na Internet, especificamente um no site do FMI, que sustenta que com a cesta o peso se tornará uma moeda desvalorizada. ‘‘Isso não vai acontecer com o peso’’, disse Cavallo. ‘‘Com a cesta, o peso vai ser mais estável que o dólar e o euro’’. O outro artigo, escrito por um acadêmico dos EUA, afirma que ‘‘a Argentina precisa reestruturar compulsivamente sua dívida’’. Cavallo qualificou este acadêmico, o qual não citou o nome, de ‘‘delirante’’. Cavallo disse que o país não vai reestruturar sua dívida. ‘‘O que faremos é trabalhar para ter cada vez mais e melhor financiamento em mercados abertos, e dessa forma, não ter que depender dos organismos multilaterais de crédito’’. De São Paulo, Cavallo irá à Londres para a reunião do Grupo dos Trinta. Na capital britânica encontrará o ministro da Fazenda, Pedro Malan, a quem fornecerá mais dados sobre a cesta de moedas.

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