Projeto alia produtividade e preservação
PUBLICAÇÃO
domingo, 17 de dezembro de 2000
Vânia Casado De Curitiba 
A ação predatória dos búfalos, que estaria provocando danos irreparáveis na Mata Atlântica, levou a Sociedade de Educação Ambiental e Pesquisa em Vida Selvagem SPVS a oferecer novas tecnologias aos pecuaristas do litoral do Paraná. O objetivo do acordo é o da cooperação para evitar o confronto entre as partes. A estratégia da SPVS é envolver os pecuaristas no trabalho de conservação ambiental que vem desenvolvendo na região. O presidente da Associação de Criadores de Búfalos (Abupar), Ugo Rodacki disse que o acordo com a entidade ambientalista veio em boa hora.
Esse acordo foi incluído no projeto Probio (Programa de Conservação da Biodiversidade no Brasil), executado pela SPVS na Área de Preservação Ambiental de Guaraqueçaba. A entidade constatou que 69 propriedades com búfalos ocupam 80% da área da região. Daí a importância em trabalhar com esses elementos no conjunto da preservação, justificou o consultor da SPVS, Fábio Rosa. A entidade ambientalista se compromete em repassar a tecnologia e os pecuaristas que aderirem ao projeto se comprometem a recuperar a mata ciliar dentro de sua propriedade, já que boa parte foi destruída pelos próprios búfalos.
Os municípios de Antonina, Morretes e Guaraqueçaba, no litoral do Paraná, concentram 10% do rebanho de búfalos no Estado, que hoje atinge 150 mil cabeças. Os búfalos foram levados à região litorânea na década de 70 por grandes pecuaristas, que identificaram nas condições daqueles municípios (altas temperaturas e água em abundância) o local ideal para criação desses animais. O censo do IBGE, de 1995, registrava a presença de 22 mil animais na região. Os pecuaristas lembram que o número de animais está caindo.
Ocorre que os búfalos estabeleceram uma situação de desequilíbrio na região de Guaraqueçaba, disse Rosa. Isso porque os animais constantemente se evadiam da área pastoril (que era Mata Atlântica, mas foi derrubada) para a região de mata efetiva, provocando grande impacto. Segundo Rosa, os animais comem as árvores mais jovens e isso vem provocando uma redução do adensamento da Mata Atlântica, que já pode ser detectada nas fotografias por satélite. A depredação dos búfaltos em relação à mata equivale à matar todos os bebês, comparou Rosa. Ele disse que a floresta envelhece e não tem como se renovar.
Para reverter esse quadro, a SPVS propôs uma nova tecnologia aos produtores de búfalos. Trata-se de uma adaptação do Pastroreio Rotativo Rotacional, mais conhecido como Pastoreio Voisant, às condições da região. Ou seja, uma área de pastagem é dividida em vários piquetes e os animais fazem o rodízio por essas sub-divisões, numa escala curta de tempo, de modo que quando retornam ao primeiro piquete, a pastagem já se renovou. A passagem dos animais pelas áreas são controlados por cercas elétricas. A divisão de piquetes é intensificada no período do inverno, já que no verão há uma disponibilidade maior de alimentos.
No sistema tradicional, a criação de búfalos é extensiva e os pecuaristas não fazem a renovação das pastagens, o que dificulta as condições de alimentação dos animais, constatou o consultor da SPVS. Segundo ele, a tendência das pastagens degradadas é a perda de vigor das gramíneas e elas estão sendo substituídas pelas invasoras. Nesse caso, só restam duas alternativas ao pecuarista. Ou ele recorre aos produtos agrotóxicos (herbicidas) para matar as invasoras e com isso eleva o custo de produção e poluem o meio ambiente ou adota um sistema de manejo que evita a degradação dos pastos.
Segundo a SPVS, a possibilidade de degradação da Mata Atlântica é grande e o estrago só será percebido daqui a 20 anos. Para evitar isso, a entidade ambientalista decidiu se aliar as demais entidades que já atuam na região como Iapar, Emater e Abupar. Os investimentos em cercas elétricas e replantio das áreas de pastoreio ficam por conta dos pecuaristas.
O modelo proposto está baseado nos conceitos de sustentabilidade como o equílibrio ecológico, justiça social e que seja economicamente viável. Segundo Rosa, o processo de degradação vinha prejudicando os pecuaristas. Ele aponta a redução do rebanho de búfalos e as dificuldades de se manter na região. A atividade está definhando e o pecuarista está perdendo o vigor que exibia antes.
Rodacki concorda que os criadores de búfalos estão interessados em substituir a forma de criação extensiva por uma tecnologia mais moderna. Além disso, os pecuaristas estão dispostos a se engajar nas propostas de proteção do litoral. Rodacki disse que já ha um consenso entre eles que a vocação da região é o turismo e o búfalo na região entra com uma figura de animal ecológico que faz parte desse cenário. Não estamos interessados em desenvolver uma atividade de alta produtividade. Mas queremos ser parte integrante dessa nova realidade, admitiu.
Rodacki não concorda com a constatação da SPVS de que os búfalos promovem a deterioração da Mata Atlântica. Segundo o pecuarista, os animais procuram mais as áreas alagadas e vão à mata em busca de sombra e não de alimentos. No máximo comem os brotos das árvores, não uma árvore inteira, disse. Além disso, a rebrota dos arbustos na região é intensiva em função do clima e não há risco de maiores danos à floresta. A vegetação está exuberante e os búfalos não têm capacidade de destruí-la, contestou.


