São Paulo - A soja, usada como insumo para produção de proteína animal e base para boa parte da indústria de alimentos, será mesmo a principal matéria-prima para a largada do Programa Nacional do Biodiesel. A partir do próximo dia 1º de janeiro, todo diesel comercializado no País terá de receber obrigatoriamente a adição de 2% de biodiesel. A demanda compulsória do novo combustível em 2008 vai criar um mercado cativo de 800 milhões de litros. Em 2013, quando a mistura obrigatória passa a 5%, a demanda chegará a 2,4 bilhões de litros por ano.
Há duas semanas, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) organizou os leilões para compra do primeiro lote de biodiesel que abastecerá o Brasil no primeiro semestre. A Petrobrás - responsável por intermediar a compra do combustível junto às usinas e revender às distribuidoras do País -, adquiriu 380 milhões de litros de 11 usinas em operação no País. Hoje, 36 unidades estão aptas a produzir o produto em todo o Brasil, número que pode chegar a 88.
O governo federal não sabe qual o volume de biodiesel que será feito a partir do óleo de soja, mas admite que a maior parte desta primeira fase virá mesmo do grão. Já a Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove) avalia que mais de 90% do biodiesel a ser adicionado no diesel no Brasil virá da soja. ''É a única matéria-prima disponível e abundante no País. Os demais óleos vegetais ainda não alcançaram volumes capazes de abastecer o Brasil'', afirma Carlo Lovatelli, presidente da Abiove.
Desabastecimento
O Ministério de Minas e Energia refuta a idéia de que o Brasil esteja repetindo a experiência dos Estados Unidos, em transformar alimento em combustível. O uso do milho para a produção de etanol nos EUA tem provocado um desequilíbrio na oferta de milho no mercado.
Ricardo Dornelles, diretor do Departamento de Combustíveis Renováveis do Ministério de Minas e Energia, nega que o Brasil tenha adotado a mesma estratégia ao admitir o uso de grandes volumes de óleo de soja para a produção de biodiesel. ''O óleo de soja não é o principal produto da soja. O carro chefe desta commodity é o farelo, a proteína. O óleo é um subproduto.''
Ele alega que no caso norte-americano, os produtores usam todo o milho para o etanol. No caso da soja, a concentração de óleo é de apenas 18% de sua composição. Aliás, baseado nesta mesma relação entre óleo e matéria seca, a soja é a pior matéria-prima para a indústria do biodiesel. Outras culturas têm rendimento muito melhor, como o girassol com 30% de óleo, ou a mamona, com 47%.
Até por isso, o governo torce para que em breve a soja deixe de ser a principal matéria-prima para o biodiesel. Mas isso pode demorar. Segundo a Abiove, dos 6,8 bilhões de litros de óleo vegetal produzidos ao ano no País, menos de 10% são de outras culturas que não a soja.
Não é só o fato de a soja ser a base da cadeia de alimento que preocupa o governo. A questão do custo da matéria-prima é um problema a ser enfrentado. ''Muitos produtores entraram neste mercado para marcar o território e não deverão ficar se não houver uma isonomia tributária da soja com os demais óleos, como mamona e palma'', diz Lovatelli. ''O custo do metro cúbico de soja é maior do que o metro cúbico de biodiesel. A conta não fecha.''

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