Trabalhadores do setor de bens duráveis e de segmentos passíveis de automação e de fusões devem preparar-se para um novo ano mais difícil do que 98. Eles serão o principal alvo dos cortes programados pelas empresas. Mas a recessão prevista para o próximo ano não vai poupar nenhum segmento específico, nem mesmo o de telecomunicações, que pretende demitir funcionários sem qualificação e contratar, em proporções menores, somente pessoal de áreas mais técnicas.
A valorização cambial e os juros elevados, principais componentes da política de estabilização do Real, vão manter a produção em queda e o desemprego em alta. O maior enxugamento de pessoal deverá ser promovido por indústrias que produzem veículos e autopeças, eletroeletrônicos, máquinas e equipamentos, maiores empregadores do setor formal (com carteira assinada). O setor de serviços deverá absorver parte desse pessoal.
O coordenador da Área de Assuntos Internacionais e membro do Conselho Deliberativo do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP), Gilberto Dupas, prevê que mais 3 milhões de trabalhadores com carteira assinada devem perder o emprego em 99. Pelos dados do IBGE, Dupas calcula que o índice de desemprego formal já está em 8% da População Economicamente Ativa (PEA) e poderá chegar a 12%.
Os ‘‘sem-carteira’’ devem engrossar as estatísticas cada vez mais crescentes do trabalho informal que, na opinião de Dupas, passará a responder por 60% da PEA, calculada em cerca de 75 milhões de pessoas. Hoje, essa participação é de 55%. ‘‘Os empregos ficarão cada vez mais flexíveis e informais e haverá uma precarização do trabalho’’, diz.
Sensível Para a diretora do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Clarice Seibel, a manutenção das altas taxas de juros vai tornar inviável o crédito para as empresas, que já estão inadimplentes, por exemplo, com o pagamento de impostos. ‘‘Estamos verificando queda constante na capacidade produtiva utilizada e no número de horas trabalhadas, o que demonstra a necessidade de um número menor de funcionários’’, afirma.
Dupas acrescenta que o juro alto também vai inibir as vendas pelo crediário ao consumidor, realimentando o processo de recessão via demanda fraca. Com a queda do PIB, prevista entre 1% e 4%, as consequências no nível de emprego serão inevitáveis, mesmo porque, lembra ele, a economia hoje é mais sensível do que no passado, quando também passou por momentos de crise. ‘‘O impacto dessa queda sobre o emprego será maior do que foi na década de 80 e no início dos anos 90’’, diz.

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