Dorico da SilvaDebateIrene Zapparoli, coordenadora do curso de Economia da UEL; professora Solange Infozato; Armando Barros de Castro e o professor da UEL, Laércio Rodrigues de Oliveira: aula inauguralSem um sistema que contribua para que os frutos do progresso tecnológico sejam distribuídos, haverá um crescimento do desemprego, da marginalidade e do caos social. Para inverter essa tendência, é preciso criar regras internacionais para as relações de trabalho e relações sociais. A tese é do professor de Economia da PUC-SP e economista da Fundação Seade, Armando Barros de Castro, que apresentou suas idéias sobre Globalização e Novas Relações entre Capital e Trabalho, ontem à noite, na aula inaugural para os alunos do curso de Economia da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Na análise do professor, a globalização é um processo histórico diferenciado do capitalismo que exigiu o esgotamento e a implosão do arcabouço político institucional. ‘‘O capitalismo tornou intrínseca a proteção do trabalho, o nível salarial, a geração do emprego. Foi uma sincronização feliz entre capital e trabalho, sintetizada no estado de bem-estar social’’, diz. O que ninguém esperava - argumenta - é a velocidade com que ocorreu a acumulação do capital.
A implosão desse sistema, que tirou a proteção do emprego, e o desenvolvimento tecnológico são as origens do desemprego. De acordo com o professor, se o desemprego já é grande com as pessoas que perderam seus empregos, ficará ainda maior nas próximas décadas com o aumento populacional. ‘‘A tendência é a marginalidade’’. O que não pode deixar de acontecer é a distribuição do progresso tecnológico para todos. ‘‘O avanço técnico é positivo para todos. Não podemos querer a condenação bíblica, de ganhar o pão com o suor do nosso trabalho. É impossível achar essa evolução ruim’’, afirma o professor.
A superação desse caos vai ocorrer, segundo Barros de Castro, com uma convergência de políticas de vários países, no desdobramento internacional. Ele ressalta que, em relação aos bens e serviços, as certificações de qualidade levam a uma padronização.
Os Estados Unidos, de acordo com o professor, têm insistido que querem cláusulas ambientais e sociais que valham para todos os países. Os contrários a essa idéia argumentam que é mais uma manobra americana para acabar com as vantagens comparativas. ‘‘Do ponto de vista dos trabalhadores, é um lamentável e terrível equívoco. Não podemos querer sair do subdesenvolvimento com base em vantagens comparativas espúrias’’.
As vantagens comparativas espúrias a que se refere são as condições desumanas a que são submetidos trabalhadores em vários países, como China, Índia, para produzir mercadorias com preços imbatíveis no mercado internacional. ‘‘Não podemos querer que o Brasil tenha uma boa posição no mercado internacional com base nos baixos salários’’.
O professor compara a questão do trabalho com a do meio ambiente. ‘‘Não podemos deixar que se esgotem os recursos naturais do planeta porque traria prejuízo para todos os homens. Temos que convergir em níveis de proteção social e salarial. Temos que mudar a rota do crescimento da marginalidade, do esgotamento dos recursos naturais.’’
Na análise do professor, o estabelecimento de regras sociais e de trabalho para todos os países vai evitar a exploração do trabalhador. Novas condições de trabalho vão manter níveis de emprego, que são extintos a cada dia. ‘‘Os capitalistas vão querer isso?’’, pergunta Barros de Castro. Ele responde que salário e lucro estão diretamente ligados.
O professor cita o exemplo da marca Nike de calçados esportivos, que produz tênis em mais de 30 países, sem a contratação de um operário sequer. Em 97, a Nike faturou US$ 9 bilhões. ‘‘A Nike contrata serviços nos países mais pobres e determina o padrão de qualidade desejado. Se as empresas vão explorar menores, estabelecer trabalho escravo para a produção, a Nike não quer nem saber. E não existe uma instância internacional que avalie esses casos’’. (Carina Paccola)

mockup