São Paulo - Cristiane tem 23 anos, uma filha e um emprego ensurdecedor. Trabalha numa pequena tecelagem no histórico e decadente bairro de Carioba, localizado às margens do Rio Piracicaba, em Americana, interior de São Paulo. Não tem plano de saúde, nem um mísero protetor auricular. Desde os 13 anos é tecelã. Trabalha dez horas por dia e é responsável por manter pelo menos sete teares em funcionamento ininterrupto.
Mas nem esse tipo de tecelagem, que conta com Cristiane como força de trabalho barata e disposta, tem conseguido enfrentar os chineses. ''Não importa o grau de competitividade a que o pólo chegue. Os produtos chineses entram no Brasil com preço 50% menor'', lamenta Fábio Beretta Rossi, presidente do Sindicato das Indústrias de Tecelagem de Americana, Nova Odessa, Santa Bárbara d'Oeste e Sumaré (Sinditec). Americana é o epicentro do maior pólo de tecido plano de fibras artificiais e sintéticas da América Latina. Essa região, que produz 160 milhões de metros lineares por mês, está no olho do furacão chinês. Teme os estragos que a concorrência asiática pode voltar a produzir. Em 1995, a produção caiu pela metade. A dura experiência foi suficiente para o setor, agora alerta, monitorar as ameaças. E a luz vermelha acaba de acender.
Em dois anos, as importações de têxteis e confecções da China aumentaram 275%. O país, que era o quinto fornecedor de têxteis para o Brasil, assumiu a liderança em dois anos. As principais vítimas da concorrência chinesa são as indústrias de fios e tecidos sintéticos e artificiais, como nylon, poliéster, rayon.
A Polyenka, fábrica de filamentos de poliéster que tem 700 funcionários, precisou reduzir a produção pela primeira vez em seus 35 anos de vida. A empresa cortou em 30% a fabricação. Há dois meses, Jörg Albrecht, presidente da empresa, teve de demitir 50 funcionários. ''Fomos obrigados a reduzir os preços para competir com fios chineses e nossa margem de lucro ficou muito pequena'', diz Albrecht, que também é presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Fibras Artificiais e Sintéticas. ''A situação nunca foi tão ruim.'' Segundo ele, os filamentos de poliéster importados abasteciam 1% do mercado em 1992. Hoje, respondem por 49% do mercado e seguem crescendo. ''O mercado aumentou, mas os importados cresceram bem mais rapidamente.''
A fábrica BerettaRossi com 70 teares modernos e de alta produtividade já está com capacidade superior à carteira de pedidos. Foi assim em janeiro, fevereiro. A situação é a mesma em março. ''São os chineses'', diz Rossi com tom de lamento. Se em dois meses os pedidos não voltarem, Rossi não terá alternativa senão a demissão do pessoal.

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