BRASíLIA - Cerca de 40% do déficit da balança comercial brasileira em 1996 foi causado pelo comércio agrícola com os países do Mercosul. Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério da Indústria, do Comércio e do Turismo (MICT) revelam que o déficit da balança comercial agrícola do Brasil com o Mercosul no ano passado foi de US$ 2,3 bilhões. As importações de produtos vindos dos países do bloco somaram US$ 3,2 bilhões, enquanto as exportações ficaram em US$ 877 milhões. Desde a formação do Mercosul, em 1990, o saldo da balança comercial agrícola tem sido negativo, principalmente por causa das importações de trigo da Argentina, soja do Paraguai, arroz da Argentina e Uruguai. Na avaliação de especialistas da área, a tendência é de continuidade do déficit, pois o Brasil seguirá importando estes produtos. Só no caso do trigo, por exemplo, o consumo brasileiro atinge oito milhões de toneladas e a produção nacional não passa de três milhões de toneladas. No comércio agrícola global, o Brasil teve em 1996 um superávit em torno de US$ 8 bilhões. Os dados da Secex indicam que as exportações agrícolas totalizaram US$ 14,5 bilhões, enquanto as importações atingiram US$ 6,8 bilhões.
Listas As listas de produtos comercializados no Mercosul, elaboradas pelo Sistema de Controle de Importação e Exportação do Ministério da Agricultura, demonstram que o brasileiro está consumindo os mais diversos produtos dos países vizinhos. Entre eles estão frutas, legumes, temperos, grãos e carnes. A cada ano aumenta a quantidade de produtos importados, passando de 5,3 milhões de toneladas em 1992 (US$ 1 bilhão) para 16,8 milhões de toneladas no ano passado (US$ 3,2 bilhões).
Os números, apesar de expressivos, não preocupam o governo. ‘‘O Mercosul é para valer e vamos continuar importando sem problemas’’, avalia o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Dias. Ele cita o exemplo do arroz, que argentinos e uruguaios estão conseguindo produzir a menores custos que no Rio Grande do Sul. Pelos dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Brasil vem importando mais de um milhão de toneladas de arroz por ano da Argentina e do Uruguai. Os dois países ampliaram sua produção apenas para atender o mercado brasileiro. Estão produzindo 1,8 milhão de toneladas para um consumo interno total de 480 mil toneladas. Boa parte do que sobra vem para o Brasil, produzido inclusive por brasileiros que foram estimulados a mudar para lá em função dos custos menores.
O ministro da Agricultura, Arlindo Porto, lembra que o mercado brasileiro é muito dinâmico e avalia que o comércio agrícola com o Mercosul deve ser acompanhado atentamente. Nos últimos tempos, por exemplo, a importação de vacas leiteiras do Uruguai e de picanhas da Argentina tem chamado a atenção do Ministério. Segundo os dados da SECEX, no ano passado foram importadas 4 mil toneladas de bovinos, matriz prenhe ou com cria do Uruguai, quase quatro vezes mais que o total registrado três anos antes, em 1993, com 1,2 mil toneladas.
A picanha argentina também está entrando com voracidade no mercado brasileiro: o comércio cresceu mais de seis vezes nos últimos cinco anos, passando de 312 toneladas em 1992 para 1,9 mil toneladas no ano passado. O coordenador do Sub-grupo de Trabalho 8 (SGT-8) do Mercosul que trata da agricultura, Constantino Souto, observa que, constantemente são feitas reuniões entre os países do bloco exatamente para controlar o comércio. ‘‘O Mercosul é um processo de integração solidária e não competição acirrada’’, avalia.

mockup