A atual política cambial praticada pelo governo federal somada ao pacote de medidas de socorro à agricultura, anunciado no último dia 25, deverá levar os agricultores a repetir os protestos iniciados em meados do mês passado. A avaliação é do professor Geraldo Sant'Ana de Camargo Barros, professor da USP/Esalq e coordenador científico do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). Segundo ele, as medidas apenas irão desafogar o setor, mas não são suficientes para permitir que o agronegócio funcione bem.
''Os agricultores continuarão produzindo, mas estão desestimulados. Certamente, haverá redução da área plantada, até por falta de capital'', disse Barros. Além da redução do plantio, é consequente a diminuição do uso de insumos e defensivos agrícolas, que fará cair a produtividade das lavouras. ''2007 será a sina do agronegócio e os produtores rurais não irão conseguir saldar todas as suas dívidas. As soluções requeriam um prazo maior, de 10 a 15 anos'', comentou.
No entanto, a repentina alta do dólar no mercado financeiro vai trazer algum benefício ao agronegócio. A consequência mais direta é a elevação dos preços dos estoques de todos os produtos e commodities. Mas a recomendação é ter cautela e não negociar toda a produção. O ideal é aguardar e acompanhar a evolução do dólar, que poderá ser mais valorizado. ''É difícil dizer se a alta vai perdurar. O que se pode dizer é que para ser duradoura, deve haver uma valorização do dólar não só no Brasil, mas no mundo todo e, por enquanto, não há sinais de que isto esteja ocorrendo'', analisa o professor.
Aliás, de acordo com ele, se a inflação e a taxa de juros dos Estados Unidos não tivessem tido uma alta, provavelmente, o dólar teria ficado abaixo dos R$ 2 no Brasil. ''Dólar com valor maior do que R$ 2,40 só com uma nova crise política. A tendência é que a cotação da moeda fique entre R$ 2,10 e R$ 2,20, não há razão para que o dólar fique com um valor maior porque o foco da política econômica agora é controlar a inflação'', avalia. O dólar, mesmo com um valor considerado baixo pelos agricultores, indica que a exportação ainda é uma alternativa viável.
Cálculos do Índice de Volume Exportado pelo Agronegócio/Cepea indicam que no primeiro trimestre deste ano as exportações aumentaram 7,68% com relação ao mesmo período do ano passado. ''O fato de o agronegócio seguir exportando apesar da queda de rentabilidade sugere que as alternativas no mercado interno sejam ainda menos atrativas. Os juros altos e o crédito escasso induzem à procura do mercado externo, onde a renda permanece em elevação, mesmo com uma taxa de câmbio desfavorável'', diz Cury.
Juros - A atual taxa de juros de 15,25% ao mês, considerada uma das mais altas do mundo, deverá cair para um dígito em um prazo médio de dois ou três anos. ''A taxa de juros está sendo cortada aos poucos, mas até esse prazo a meta da equipe econômica é controlar a inflação'', diz o professor. O controle da inflação traz custos para a economia: barra o crescimento da economia porque torna as aplicações no mercado financeiro mais vantajosas do que os investimentos em infra-estrutura.

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