A Câmara de Comércio Exterior (Camex) aprovou uma nova prorrogação para importação de 600 mil toneladas de trigo do hemisfério Norte, principalmente Estados Unidos, sem a cobrança de Tarifa Extra Comum (TEC). Ou seja, o commodity norte-americana vai entrar no País com tributação zerada. A informação caiu como um balde de água fria para os triticultores do Paraná e Rio Grande do Sul, responsáveis pela produção de 95% do produto nacional, de 4,3 milhões de toneladas para essa safra.
Segundo os representantes das entidades que atuam no segmento, não poderia haver pior momento para essa ação, já que os produtores estão no momento de colheita e comercialização do cereal. "O Paraná acabou de colher a safra de trigo, a maior parte atingida pelas geadas, e o Rio Grande começou a sua colheita. Essa importação foi um soco no estômago do produtor e atingiu diretamente o mercado", disse o presidente da Comissão Técnica de Cereais da Federação de Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Ivo Arnt.
A ação da Comex aconteceu na mesma semana em que o ministro da Agricultura, Antônio Andrade, convidou o presidente da Faep, Ágide Meneguette, e o presidente da Federação de Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Carlos Sperotto, para discutir uma política agrícola dedicada ao trigo. Durante a reunião, o Ministro desabafou: "Fui voto vencido na Camex".
Com a liberação da entrada do trigo dos EUA para os moinhos, já são cerca de 3,3 milhões de toneladas do produto chegando ao País sem a cobrança da TEC. No total, o Brasil importou 5,2 milhões de toneladas entre janeiro e setembro. "As medidas adotadas pelo governo apenas comprovam que não existe nenhum plano estratégico para o trigo no País. Acredito que essa medida foi tomada com o temor de não haver trigo o suficiente para abastecer os moinhos. A questão é que esse não é o momento de fazer isso, já que estamos em plena colheita e comercialização do produto", explica o economista da Faep, Pedro Loyola.
Ele não tem dúvidas que essa medida vai acabar puxando os preços para baixo nesse momento. De acordo com dados do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Agricultura do Paraná (Seab), a comercialização fechou na casa dos R$ 48,57 em outubro para a saca de 60 kg. "Os preços não estão ruins no momento, mas o problema é que os produtores perderam muito com a geada. Com o trigo norte-americano chegando, a tendência é de queda daqui para frente", explica ele.
Uma medida paliativa seria destinar essas novas 600 mil toneladas de trigo sem tarifas de importação para o Nordeste, o que faria o mercado reagir de maneira menos brusca.
Para Loyola, o governo precisa definir uma política de apoio à comercialização da commodity produzida em solo brasileiro, para que o triticultor tenha segurança antes de plantar. "Em fevereiro, quando ainda está planejando o que vai fazer, o produtor precisa ter uma posição do governo, sabendo se vai ou não apoiar o plantio da cultura. A volatilidade do preço é enorme. Ele também precisa saber se o seguro rural será liberado para poder produzir com tranquilidade".

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