Produtores paranaenses comemoram acordo
Grande exportador de produtos como carne de frango e milho, o agronegócio paranaense comemorou o anúncio do acordo entre Mercosul e UE (União Europeia)
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de junho de 2019
Grande exportador de produtos como carne de frango e milho, o agronegócio paranaense comemorou o anúncio do acordo entre Mercosul e UE (União Europeia)
Rafael Costa - Grupo Folha 

Na Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), a conclusão da negociação foi recebida como “a melhor notícia da década” para a agropecuária paranaense, conforme conta o economista Luiz Eliezer. “Era um mote da agropecuária brasileira o acesso aos mercados europeus”, explica.
Segundo Eliezer, a ampliação de quotas para a exportação de carnes, açúcar e etanol, prevista no acordo, era um pleito antigo do setor no Estado. “Ainda não sabemos quanto, mas o simples fato de haver ampliação já é bastante positivo e atende a demandas de longa data”, diz — destacando entre os produtos paranaenses beneficiados o suco de laranja, frutas e café solúvel, que terão tarifas eliminadas.
“A União Europeia tinha uma característica muito protecionista em relação a seus produtores, o que deve diminuir bastante. Isso vai permitir que consigamos levar esses produtos com mais competitividade aos europeus”, analisa.
A expectativa, segundo o economista da Faep, é que a importância do mercado europeu para a exportação seja recuperada a níveis de anos anteriores. Segundo Eliezer, o percentual das exportações do Paraná para o bloco caiu de 22% em 1997 para 10% em 2018.
“O agronegócio paranaense só tem a ganhar com esse mercado. É um mercado exigente, e temos volume e qualidade para atendê-lo. A perspectiva é muito positiva”, diz.
COOPERATIVAS
No setor cooperativista brasileiro, a expectativa é de um incremento de US$ 70 bilhões (R$ 269 bilhões) — 98% deles no ramo agropecuário, em que o Paraná é o terceiro maior exportador do País, segundo o Governo do Estado. Os principais ganhos são esperados para segmentos em que o Paraná é um produtor importante: carnes (principalmente frango), açúcar e milho. Ainda não há uma estimativa de impactos específicos no Estado.
“É um acordo que tem um grande potencial comercial para as exportações. O setor vê o tratado como um grande avanço para o cooperativismo do Brasil e do Paraná”, diz o analista de desenvolvimento técnico da Ocepar (Sindicato e Organização das Cooperativas do Estado do Paraná), Jhony Moller. “Outros setores da indústria serão beneficiados. Porém, teremos benefícios em especial no setor de carnes, pela nossa experiência e volume de produção”, diz.
O diretor-presidente da Sociedade Rural do Paraná, Antônio Sampaio, conta que a perspectiva de abertura de mercados “soa como música” aos ouvidos dos produtores, e que o acordo traz como efeito imediato o aumento do otimismo — ainda que sua concretização envolva um processo de vários anos, desde a ratificação até a aplicação progressiva de novas taxas e quotas.
“O otimismo é muito importante, porque faz as pessoas voltarem a acreditar e investir”, explica. “Quando ficam desiludidas, as pessoas deixam de melhorar, de buscar novas tecnologias. A notícia de um acordo interessante cria novo ânimo”, conta.
GANHOS
Na avaliação do professor de Economia da UFPR Maurício Vaz Lobo Bittencourt, que coordena o Núcleo de Economia Internacional e Desenvolvimento Econômico, a impressão inicial é de que o acordo traz ganhos de uma forma geral, embora ainda não seja possível analisar impactos sobre setores específicos que poderiam perder competitividade — como a indústria automotiva. O benefício para o agro é certo — o que torna o acordo benéfico para o Estado.
“A agricultura aqui não é protegida como é lá. Abrir este mercado ao setor agrícola é uma grande vantagem”, diz.
Na avaliação do professor, um tratado de livre comércio poderia se tornar inviável se a conclusão não tivesse saído agora. “É um acordo que já deveria ter saído há muito tempo. O Brasil estava isolado comercialmente. Por esse aspecto, é um grande ganho estarmos sinalizando para o resto do mundo que estamos fazendo o segundo acordo mais importante da União Europeia”, avalia.
Para Bittencourt, contudo, uma avaliação mais sólida sobre as perspectivas do acordo depende de conhecer em detalhes as concessões feitas pelo Brasil.
Ele lembra que o mercado europeu que se abre para a produção brasileira é exigente e poderá impor adaptações aos produtores e ao governo. “O Brasil precisará ter uma grande cautela com o meio ambiente. Isso será visto com um rigor muito maior pelos europeus. O consumidor final na Europa é extremamente exigente. Isso pode ter um impacto na questão sanitária, no uso de defensivos agrícolas. Não sei como o governo brasileiro garantirá isso”, diz.
Segundo Bittencourt, caso o Brasil não consiga cumprir exigências desta natureza, pode perder suas vantagens no acordo. “Se o País tiver comprometido muito, a ponto de não poder cumprir, seria prejudicial”, avalia.
INDÚSTRIA
Alinhada à CNI (Confederação Nacional da Indústria), que considerou o tratado “o mais importante acordo de livre comércio que o Brasil já firmou”, a Fiep (Federação das Indústrias do Paraná) divulgou uma nota positiva em que o presidente da entidade, Edson Campagnolo, diz que o acordo abrirá novas possibilidades para a exportação de produtos, beneficiando segmentos da indústria paranaense.


