Produtores desafiam indústria do café
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 01 de março de 2002
Oswaldo Petrin 
A cafeicultura paranaense reage ao aviltamento de preços - e à baixa qualidade da bebida que chega ao consumidor - e tenta pôr fim a um longo período que alguns produtores chamam de servilismo aos interesses da indústria de torrefação. No dia 10 de abril o setor lança, em Londrina, o Projeto Agregar Valor, que vai levar o produtor a administrar melhor seu negócio. A idéia é que, ao invés de simplesmente produzir e entregar a matéria-prima para a indústria, o produtor procure avançar em algumas etapas como a moagem e a comercialização do pó.
O anúncio do projeto foi feito quinta-feira neste jornal pelo presidente da Associação Paranaense dos Cafeicultores (APAC), Ricardo Strenger. Os fatores pureza e qualidade vão permear essa mudança.
O Projeto Agregar Valor pode tornar-se um divisor na história da cafeicultura local. Segundo o presidente da Apac, o projeto vai estimular a verticalização da produção, torrando o grão escolhido e lançando novos produtos derivados de café.
Dominando esses processos, os produtores vão mostrar que o café do Paraná é tão bom quanto os melhores cafés do cerrado. Com isso, podem eliminar os deságios.
Para mostrar que o café paranaense tem qualidade superior, Ricardo Strenger recorre aos números. No ano 2 mil, 76% dos cafés paranaenses beberam duro, provando que são de excelente qualidade.
O café a ser industrializado pelo próprio agricultor, de imediato terá uma vantagem sobre a maioria dos encontrados hoje no mercado. Ele não terá a mistura do robusta. Será exclusivamente arábica. No momento em que o consumidor souber o que significa isto, a imagem do café paranaense vai melhorar.
O café robusta, que não é produzido no Paraná, é misturado ao arábica porque seu preço é bem menor. A qualidade, contudo, é inferior.
Neste caso, mesmo produzindo a um custo mais alto, as indústrias do produtor terão a seu favor o fator qualidade que o consumidor mais atento logo levará em conta.
Perguntado se o brasileiro toma um bom café, Strenger disse que o café que os brasileiros tomam é de baixa qualidade. O mercado está em guerra de preços e precisa reduzir os custos para competir. O robusta, além de baixar a qualidade do café, ainda eleva a quantidade de cafeína, que faz com que as pessoas tenham inibição fisiológica ao consumo de café, devido ao alto teor de cafeína.
A adição exagerada de café robusta - que derruba a qualidade do cafezinho ao elevar o teor de cafeína -, pode ser também a responsável pela queda no consumo ano passado. O consumidor fica saturado de cafeína e acaba induzido a uma rejeição natural. É inconsciente e automático, o indivíduo fica saturado de cafeína, explica Strenger, que é médico.
A conclusão da Apac, depois de um longo processo de discussão sobre o café, é que não adianta o produtor, lá no campo, fazer um bom café - usando todas as técnicas de colheita, secagem, catação, etc - se a indústria não atuar na mesma direção. Hoje, se o produtor quiser que essa qualidade chegue ao consumitor - e ser remunerado por isto - vai ter que assumir ou participar todas as etapas: produção, preparo e industrialização.


